Artigos & Entrevistas

Entrevista – revista eletrônica Esporte & Terapia:

Wagner Büll Sensei – 6º Dan – Aikikai Shihan.

Esporte & Terapia: Professor, qual seria a tradução mais apropriada da palavra AIKIDO?

Sensei Wagner Büll: AIKIDO é um Caminho de Harmonia com as energias do Universo.

E&T: Como descobriu a paixão por AIKIDO? Teve influências de alguma pessoa?

Sensei: Eu praticava na época boxe e Karatê quando eu cursava engenharia civil no Paraná. Um amigo meu que também fazia Karatê, me indicou que havia aparecido em Curitiba uma arte marcial muito bonita e que o professor podia controlar facilmente o atacante com técnicas bem precisas. Eu fui visitar o Dojo e me matriculei no mesmo dia.

E&T: Qual a idade mais apropriada para uma pessoa começar a praticar o AIKIDO?

Sensei: Depende do professor que tiver. A rigor, creio que entre os 6 e os 80 anos  seria uma faixa razoável.

E&T: Notamos que o grupo dos praticantes de AIKIDO é muito unido, mesmo fora do Dojo. Isto é um dos princípios básicos do AIKIDO?

Sensei: O AIKIDO, que tem como meta o Takemussu Aiki, ensina que devemos procurar nos unir até com os que nos criam problemas, pois se usarmos as técnicas adequadas, ambos podem se beneficiar e somar forças. Isto é o que dá a aparência de grande união para o público. No entanto, as pessoas são diferentes e nem todos pensam da mesma forma, inclusive até quanto à própria forma de ensinar e divulgar o AIKIDO.

E&T: No mundo atual, onde a competição faz parte do nosso dia-a-dia, como o AIKIDO, uma arte marcial não competitiva é cada vez mais valorizada?

Sensei: As pessoas estão percebendo que a competição, embora leve à conquista pela vitória imposta pela força, acaba permitindo uma vitória apenas relativa e, assim, não duradoura. A idéia do AIKIDO é vencer junto, de forma harmônica, política, onde todas as partes acabam se beneficiando. Assim ela é duradoura e traz a paz. O mundo anseia por paz e esta é exatamente a proposta do AIKIDO. Portanto, a cada dia fica a arte mais valorizada.

E&T: Sensei está sempre organizando seminários internacionais. Poderia relatar algumas experiências no exterior? E com a família Ueshiba?

Sensei: Realmente fizemos muitos seminários com grandes mestres. No começo é difícil, mas depois a gente fica conhecido como pessoa séria, acaba ganhando reputação e confiabilidade como organizador e aí fica fácil convidar qualquer pessoa. Outra coisa muito importante é que nossa organização, o BRAZIL AIKIKAI (Confederação Brasileira de AIKIDO) é reconhecida oficialmente pelo Hombu Dojo, a Central Mundial do AIKIDO, no Japão. Assim temos total credibilidade na comunidade aikidoística mundial e, portanto, trânsito livre entre todos os mestres internacionais que respeitam o Aikikai e a família Ueshiba para convidá-los.

Quanto ao líder atual da família Ueshiba, o Doshu Moriteru, ele ficou muito feliz com o seminário que organizamos com ele no Brasil. Pois conseguimos fazer, em conjunto com a Fepai, o segundo maior Seminário de AIKIDO até hoje realizado no mundo, comprovando que somos potência mundial no AIKIDO e que somos confiáveis em todos os sentidos. As portas agora estão abertas.

E&T: Quais os idiomas em que o Sensei têm fluência? Poderia fazer algum comentário em Nihongô?

Sensei: Eu tenho fluência em inglês, leio e me comunico em francês, espanhol e conheço um pouco de alemão. Quanto ao japonês, sei o suficiente para o entendimento dos termos técnicos do AIKIDO e comunicação bem básica. Gosto muito da expressão: “Kannagara Tamachii Haemasse”, que significa: seguindo as leis do Universo a cada dia seremos mais e mais felizes. Repetimos em todos os inícios e términos de aulas no Instituto Takemussu onde ensino.

E&T: Qual o Shihan que mais influenciou a sua formação técnica? A base do AIKIDO que o Sensei pratica hoje?

Sensei: Foram vários, mas eu teria que citar pelo menos: Massanao Ueno, Gozo Shioda, Koichi Tohei, Doshu Kisshomaru, Seigo Yamaguchi, Morihiro Saito e mais recentemente Hiroshi Kato.

E&T: Poderia fazer um pequeno resumo dos 40 anos de vivência no AIKIDO (quando e onde iniciou, datas importantes, quantos Dojos são filiados, quais os estados de abrangência, etc)? Já atingiu os objetivos? Pensa em passar o bastão para os filhos?

Sensei: É impossível fazer um balanço a respeito. Creio que quem tiver interesse, o ideal é ler o terceiro volume de meu livro: “AIKIDO o Caminho da Sabedoria – DOBUM“, onde fiz um relato completo de toda a minha senda e do AIKIDO brasileiro em mais de 100 páginas. Creio que já atingi meus objetivos organizacionais, pois eu queria que no Brasil se praticasse um AIKIDO de nível internacional, dentro das propostas autênticas do Fundador do AIKIDO. Isto hoje existe no Brasil para quem procurar no lugar certo. Quanto a passar o bastão para meus filhos, isto acontecerá naturalmente, pois além de meus filhos naturais praticarem AIKIDO, tenho muitos filhos do AIKIDO e existe muita gente competente para continuar o trabalho que iniciei. Certamente haverá bons líderes e bons técnicos no futuro. No entanto, em termos de desenvolvimento individual do AIKIDO, eu ainda estou engatinhando. Agora que compreendo melhor a arte. Vejo como há níveis bem altos para se atingir e pretendo continuar aprendendo até quando a saúde me permitir e, se puder, passar os conhecimentos para quem está comigo na obra.

E&T: Como está hoje o Instituto após obter o reconhecimento internacional pelo Hombu Dojo? Mudou algo? Se mudou, foi tecnicamente ou filosoficamente?

Sensei: Nada mudou sob o ponto de vista técnico ou filosófico. A única coisa é que passamos a ter maior responsabilidade. Pois de certa forma representamos a família Ueshiba no Brasil, junto com outros mestres.

E&T: O que é o Instituto Takemussu? Qual a mensagem para dar aos jovens iniciantes e praticantes do AIKIDO?

Sensei: O Instituto Takemussu é uma organização que visa ensinar o AIKIDO da forma tradicional, objetivando o Takemussu Aiki, que é a arte marcial praticada de forma que leve o praticante à iluminação espiritual. Creio que a mensagem que poderíamos dar aos iniciantes, é que é necessário se trabalhar bastante por longo tempo com disciplina para se compreender o AIKIDO e as leis do Universo. O prêmio é grande, pois nos traz Sabedoria e com esta uma possibilidade muito maior de sermos realmente felizes. Agradeço a oportunidade da entrevista.

Fonte: Web Site Esporte & Terapia

NOTA: O Shihan Wagner Büll foi a primeira pessoa pessoa nascida na América Latina a ter reconhecimento como “Shihan” (mestre modelo) de AIKIDO pela Central Mundial do Japão. Até o momento é o único e é o professor do instrutor do DAISHIZEN DOJO.

Artigo – O Significado de Misogi por Hiroshi Ikeda Sensei.

Hoje eu e minha esposa saímos cedo do trabalho e fomos para a escola de nosso filho antes do final da aula. Era nossa semana de fazer a limpeza da sala de aula da 4ª e 5ª série. Nesta escola, cada família participa pelo menos uma vez no ano da limpeza da sala de aula de seus filhos, fazendo a limpeza (o que é muito encorajado), ou pagando $40 para que a escola contrate alguém para fazer isso (o único zelador da escola). A maioria das famílias escolhe ir fazer a limpeza.

Nós temos feito isso desde o jardim de infância e se tornou um ritual do qual gostamos muito. Acho que estar no meio da ação nos faz sentir que fazemos parte da escola, isso nos dá um sentimento de conexão com o lugar em que nosso filho passa várias horas de seu dia. Nós fazemos isso por ele, pelo professor, por seus colegas, fazendo uma pequena contribuição para manter o mundo deles limpo, em ordem e agradável. De uma maneira simbólica, estamos recompensando seu professor, a quem ele adora (e nós também) por ter uma influência tão positiva em sua vida.

Então dizemos “olá” para os outros pais e vamos ao armário do zelador, pegamos um aspirador de pó e uns sacos de limpeza e vamos para a saula de aula de Jill. É claro que nosso filho preferiria passar o tempo no laboratório de computação enquanto nós limpamos as mesas e tiramos manchas dos teclados, mas ele se junta a nós por tempo suficiente para limpar o quadro negro e guardar o aspirador de pó. Além disso, ele nos lembra que “faz seu trabalho” todos os dias. Isto é, as tarefas que as crianças fazem em turnos antes de ir para casa. Pequenas coisas como alimentar o porquinho da índia, limpar embaixo das mesas, guardar as cadeiras e suprimentos.

Eu descobri que esta escola é uma exceção neste caso. Isto me surpreendeu, porque em todas as escolas que frequentei no Japão, as crianças não limpavam apenas suas salas de aula, mas também os corredores e áreas comunitárias. Nós limpávamos e lavávamos as janelas. Isso não era uma punição, de forma alguma; era o que tínhamos que fazer e tínhamos orgulho de trabalharmos juntos para cuidar de nosso espaço. Acho que não pensávamos nisso, mas estávamos aprendendo sobre responsabilidade, respeito, realizações e cooperação.

Como a saula de aula, o Dojo é um lugar importante – muitos diriam que talvez seja ainda mais importante que uma sala de aula, porque no Dojo nosso trabalho é refinar habilidades que podem nos colocar no limite entre a vida e a morte. Acredito que muitas pessoas hoje em dia confundem o Dojo com algum tipo de centro de recreação. Mas diferentemente de um centro esportivo para levantamento de peso ou um ginásio para a prática de esportes, um Dojo de artes marciais abriga o Kami (Deus) do BUDO. Isso quer dizer que em um Dojo, o Espírito do BUSHIDO, ou uma lei de conduta, permeia o treinamento. Quando um Dojo perde isso, sofre as consequências. Acredito que isso é o Espírito do BUDO – este refinado sentimento de respeito – o que distingue um Dojo e é o que levamos em nós para nosso comportamento perante a sociedade.

O próprio ato de cuidar do Dojo nos permite manifestar fisicamente o processo de purificação de nossos espíritos. Da mesma forma, as pessoas entram no Dojo e deixam suas preocupações lá fora. O próprio Dojo deve refletir a postura mental pura de seus ocupantes, para que os alunos possam se mover com segurança e liberdade no futuro pelo Caminho do BUDO.

Infelizmente, às vezes vejo que alguns alunos consideram que o treinamento não têm nada a ver com este simples ato de cuidado. O Espírito do Dojo reflete a forma com que cada indivíduo encara o seu treinamento e isto inclui a forma como ele ou ela trata o próprio Dojo. Acredito que uma pessoa que treina em um Dojo deveria considerar que este espaço é, de alguma maneira, uma manifestação deles próprios e deveriam encarar sua purificação da mesma forma que fariam a purificação e a renovação de seus próprios espíritos.

Através da história e das culturas, o ato de limpeza e purificação têm sido um gesto tanto prático, quanto simbólico de grande significado. No Japão, este tipo de purificação ritual ou “misogi” é uma parte integral e muito importante da vida diária. Por exemplo, no final de dezembro, quase todas as pessoas em toda a nação cooperam dentro de suas famílias , escolas, companhias e Dojos para limpar os lugares em que se reúnem. Ao fazerem isso, são capazes de receber o novo ano com seus ambientes purificados, bem como com suas almas purificadas. Outros rituais de misogi podem incluir a purificação do local da construção de um edifício antes que a obra comece. Antes de cada luta de Sumô, o esporte nacional japonês, os lutadores purificam o ringue aonde irã competir jogando sal sobre ele.

Parece um paradoxo que atos simples e mundanos possam ter o poder de transformar, mas este fato têm ressurgido repetidamente através dos tempos. Se polirmos o espírito, talvez um dia o espelho esteja imaculado e então veremos nosso verdadeiro reflexo.

Artigo – AIKIDO é um BUDO, Caminho Marcial por Wagner Büll Shihan.

Nos 37 anos que praticamos AIKIDO, tivemos a oportunidade de conhecer muitos professores, “estilos”, filosofias e métodos de ensino da Arte. Dentre todos esses conceitos, existe um que absolutamente não podemos aceitar, ou seja, aquele que conclama que o AIKIDO deve ser praticado sem marcialidade.

Esses “professores” e “praticantes” acham que o AIKIDO por significar AI (amor), KI (energia), DO (caminho) deve ser praticado sem golpes fortes e os “ataques” devem ser bem suaver para não provocar a discórdia, nem preocupação de defesa sob ameaça de dano físico.

Ao se entrar numa dessas academias têm-se a impressão de que nos encontramos em uma reunião de amigos apenas para se praticar técnicas de relaxamento e sensibilização. Os movimentos são sempre feitos com lentidão e com muito cuidado para que o companheiro não se sinta nem um pouco ameaçado. As torções são sempre praticadas sem energia para que o companheiro não sinta dor. Tudo muito bem combinado. O atacante nunca resiste e o defensor, ao aplicar uma técnica lenta, vê seu agressor projetar-se metros à frente voluntariamente, simplesmente para não “estragar” a técnica que o praticante aplicou. A prática lembra uma dança lenta, suave, cheia de amor afetivo, compreensão e boa vontade. Isto tudo é ótimo e deve existir em um Dojo de AIKIDO tradicional, mas a necessidade do praticante aprender a lidar com a violência e pará-la, o Bu onde é preciso desenvolver a habilidade do corpo, dos reflexos, isto não se consegue sem ataques sérios durante parte da prática.

Se o objetivo fosse somente desenvolver relações sociais amistosas, seria melhor convidar os praticantes para um festinha, três vezes por semana, onde fossem ministradas palestras sobre atitudes de não reagir contra a injustiça e a violência. Esse “professores” do “AIKIDO suave” criticam os aikidoístas tradicionais, que treinam marcialmente, considerando cada ataque como uma situação de “vida ou morte”, por praticarem com força e velocidade. Acham que a prática firme, com energia, com realismo é pancadaria e isto iria contra o espírito do AIKIDO, pois no AIKIDO se diz que deve haver essencialmente aiki, ou seja, um tipo de Amor! Mas eles se esquecem de que o Fundador disse que o Amor do AIKIDO não era o sentimental, fraco, mas aquele que une todos os seres formando a harmonia do Universo, pois no mundo existe violência e é preciso transformá-la em algo construtivo e bom.

Uma coisa é treinar firme, com toda a energia, o que é correto; outra coisa é treinar com violência, com sentimentos agressivos. Isto sim é ruim e deve ser evitado, é preciso não confundir as coisas. Infelizmente algumas pessoas não entendem isto, deturpam o AIKIDO tradicional e transforma esta prática, que é uma das artes marciais mais completas em termos de defesa pessoal já desenvolvidas, em um sistema ineficaz, iludindo o praticante, alegando que esteja praticando uma arte marcial. AIKIDO é Shugyo (treinamento austero), onde o corpo deve se esforçar em cada técnica ao máximo. O atacante deve forçar ao limite o defensor para provocar o seu desenvolvimento e livrá-lo da estagnação e lentidão comodista em que vive a população sedentária moderna. As quedas devem ser enérgicas, as mais duras possíveis. O defensor deve se habituar a jamais deixar falhas em sua guarda e suas técnicas quando aplicadas devem ser sempre as mais eficientes possíveis. AIKIDO é uma arte marcial, um BUDO. Se não houver violência, se não houver ataques sérios e fortes, não pode existir treinamento de aiki autêntico.

É muito importante se buscar os limites individuais para que o praticante possa se melhorar e crescer, adaptando-se às suas condições de idade e saúde. O objetivo do AIKIDO é buscar a harmonia e a paz, onde há violência e guerra, e não aprender apenas a manter a paz onde ela já existe. Esta é a filosofia do Instituto Takemussu. Não haveria necessidade de se treinar AIKIDO se todos fossem pacifistas e bonzinhos. Precisamos treinar AIKIDO justamente porque o mundo tem seus aspectos agressivos, violentos, um tentando “comer” o outro. O treinamento do AIKIDO deve nos ensinar a conviver com esses sentimentos de ações destrutivas e fazer com que se desenvolvam sentimentos de fraternidade e tolerância, com atitudes construtivas que criem harmonia.

Um mundo sem concorrentes, sem competição é um mundo acabado. Nós precisamos da oposição para que possamos evoluir. Isto faz parte do plano divino para que ocorra uma seleção natural e os melhores sobrevivam, purificando o Universo. Se os fracos e comodistas tiverem o mesmo lugar dos fortes e dos trabalhadores, o progresso cessará! É por isso que o comunismo não funciona na prática. As pessoas são diferentes. Devem ocupar diferentes posições na sociedade e receber diferentes atribuições e benefícios, e tudo deve funcionar em harmonia.

O objetivo final do AIKIDO é fazer o praticante entender esta realidade e aprender a viver sempre em harmonia, mesmo se estiver dentro de um ambiente que lhe seja hostil. É claro que não se pode treinar um kata de forma harmônica, se ambos os praticantes, o que ataca e o que defende, não o quiserem. É importante que o espírito de ataque real exista. Ao qual o defensor responderá com a técnica amorosa do AIKIDO, fazendo aiki. Também é evidente que uma pessoa mais velha, uma mulher ou uma criança devem treinar mais lentamente e suavemente que um jovem vigoroso, mas isso não significa tirar o lado marcial, o Bu, da prática e sim simplesmente adaptar o treino às condições individuais de cada um para que posse treinar sem violentar seu corpo e o do parceiro, trazendo a ambos saúde e progresso físico e não contusões.

A prática deve ser marcial, mas jamais deverá provocar danos físicos aos praticantes. Machucar-se no AIKIDO é uma vergonha para quem aplica e para quem recebe a técnica. É preciso não confundir a palavra AI (amor) do AIKIDO com amor sentimental. O amor do AIKIDO verdadeiro significa unir, criando harmonia. Não é necessário ser simpático ou afetivo com o parceiro; é importante e fundamental criar harmonia. Se seu vizinho gosta ou não de você, isto não cabe a você julgá-lo. Esta é uma questão a ser respondida pelo Criador, que fez você diferente do seu vizinho. Mas é seu dever como aikidoísta fazer com que você e seu vizinho trabalhem juntos em harmonia para realizarem na Terra os propósitos da criação.

O homem e a mulher são dois exemplos clássicos, pois são tão diferentes em do outro, mas encontram uma forma de se unirem e criarem um novo ser que é a máxima realização do ser humano nesta Terra. Se alguém for diferente de você e se você não tiver afinidade com ele, descubra uma forma de trabalhar em conjunto produzindo algo útil, mesmo ele sendo seu concorrente, seu rival, seu inimigo. Este é o grande ensinamento do AIKIDO tradicional, o Takemussu Aiki. Assim, o ladrão que tenta roubar sua casa é tão útil a você como o guarda que cuida e preserva sua casa. Sem o ladrão, sua casa ficaria indefesa e você se tornaria um fraco. Por estas razões é fundamental que no Dojo exista um ambiente similar à vida, com contradições e agressões, mas claro que com o espírito de treinamento para fortalecimento do espírito. Somente assim, o aikidoísta aprende a criar harmonia fazendo aiki! Esta é a proposta do Takemussu Aiki ensinado no Instituto Takemussu. Fazer do mundo uma grande família. Para quem quiser treinar este espírito, fica aqui o convite para se associar conosco nessa tarefa, procurando um de nossos centros de treinamento.

ARTIGO – Origem do DAITORYU AIKIJUJUTSU – a fonte do AIKIDO (comentários por Wagner Büll Shihan)

Takeda Sokaku

Depois de pesquisar muito sobre AIKIDO, por volta de 10 anos atrás, percebi claramente que estudar apenas técnicas como fazem alguns praticantes de AIKIDO é inútil. Se o praticante não aprender a desenvolver o “aiki”, que é algo independente de técnicas, que o Kaiso Morihei Ueshiba chamou de Takemussu Aiki, incorporando conceitos místicos e portanto mais elevados, as técnicas não vão funcionar na prática. É preciso focar no desenvolvimento do Kokyu Ryoku (que contém o aiki), para que o AIKIDO seja realmente eficiente. As técnicas na verdade são apenas “exercícios” para se desenvolver o aiki. Muitas pessoas praticam durante dezenas de anos e acabam percebendo que não conseguem usar seu treinamento em uma luta real, em termos de defesa pessoal. Isto se deve ao fato de não terem desenvolvido o domínio do aiki, que no AIKIDO se chama de Kokyu Ryoku.

É preciso lembrar que a grandeza de O-Sensei, o Fundador do AIKIDO, foi que ele conseguiu transcender ao aiki criando o Takemussu Aiki, ou seja, a capacidade de dominar o aiki no plano físico seria usada como iluminação espiritual, devido a clareza mental e percepção extraordinária que o AIKIDO praticado corretamente acaba por desenvolver nos adeptos. Neste sentido, a arte do AIKIDO, se torna um DO, um Caminho…algo bem perto de uma “religião”.

O texto abaixo escrito por um buscador dedicado, contém exatamente o que até hoje eu estudei sobre o AIKIDO e suas origens. A única novidade é a teoria de que o Daito Ryu realmente tivesse sido criado por Takeda Sokaku. Não posso concordar com isto. A arte é muito complexa para ter sido criada por uma só pessoa. Na minha opinião (e isto é uma suposição), o aiki surgiu nas escolas de esgrima como um método de anular a espada do agressor e assim possibilitar um ataque em suas aberturas na guarda, fruto desta imobilização. Da espada para o Tai Jutsu, foi algo bem natural, bastou substituir o katana (espada) pelo tegatana (região que vai do cotovelo à extremidade do dedo mínimo).

Wagner Büll Shihan – 6º dan de AIKIDO e fundador da Escola Instituto Takemussu e presidente da Confederação Brasileira de AIKIDO – BRAZIL AIKIKAI.

DAITORYU AIKIJUJUTSU

As técnicas são muito diferentes das outras artes marciais. Ao praticar, nos concentramos em desenvolver um tipo especial de força interior (aiki) que pode ser aplicada em situações reais. Como o Daitoryu têm diversas ramificações, a forma de treinamento também difere de acordo com as preferências do professor, do Dojo, da organização. Assim, em alguns Dojos, os alunos fazem ukemi (quedas) com a técnica que o outro faz para completar esta técnica, ou melhor, a sua forma. Mas em outros Dojos, ukemi só é feito quando a técnica é aplicada de forma eficiente. Ainda assim há outro ponto de vista (em apenas uma das linhas) em que os alunos resistem às quedas, e , para ser eficiente , o outro tem que ter um alto nível de habilidade.

Em minha opinião, não importa qual seja a técnica. Um verdadeiro treinamento deve ser concentrado na pesquisa de como se aplicar qualquer técnica de forma eficiente. Como o objetivo da prática do Daitoryu é atingir o aiki (tipo especial de força interior), esta arte marcial exige completa dedicação. O Daitoryu ensina defesa sem armar (Taijutsu), contra atacante armado ou desarmado, bem como o uso de armas (Bukijutsu), como espada, bastão, faca, lança, etc. O número de técnica é de mais de 2000, todas em diversos grupos e variações. Costumava ser praticado em seminários no tempo de Takeda Sokaku Sensei. Desde que haja 2 pessoas, elas podem praticar Daitoryu. É claro que eles precisarão ter contato com o professor para aumentar seus conhecimentos. O Daitoryu não é uma arte simples. Ela exige perseverança, lealdade, estudos e…muito suor. Nada pode ser obtido facilmente.

O nome: DAITORYU AIKIJUJUTSU

A escola também é conhecida pelos nomes: Daitoryu Jujutsu, Daitoryu Aikibujutsu, Daitoryu Aikigoshinjujutsu, Daitoryu Aikibudo, Daitoryu Goshinjutsu, Daitoryu Aikinojutsu, Daitoryu Aikijutsu, e mesmo Daitoryu AIKIDO.

As variações do nome desta arte se devem ao fato de que muita organizações, grupos, subgrupos, ou ramos do Daitoryu, se desenvolveram por diversos mestres. Alguns deles eram alunos diretos de Takeda Sokaku Sensei, outros eram discípulos de 2ª e 3ª geração. A separação começou logo depois da morte de Takeda Sokaku Sensei.

A princípio parece que havia uma intenção de se unificar o Daitoryu sob um único mestre: Sagawa Yukiyoshi Sensei. O sr. Takeda Tokimune (o filho de Takeda Sokaku Sensei) pediu a Sagawa Sensei para assumir a liderança desta arte, pois Sagawa Sensei tinha o nível mais alto de habilidade. Entretanto, parece que poucos anos depois, Sagawa Sensei se recusou a manter o papel de Soke. Parece ter havido um acordo, o que permitiu a cada discípulo de Takeda Sokaku Sensei que seguisse seu próprio caminho. Assim, Sagawa Yukiyoshi Sensei assumiu o posto de Sohan e usou o nome de Seiden Daitoryu Aikibujutsu para seu Dojo (mais conhecido como Sagawa Dojo). Takeda Tokimune Sensei assumiu o posto de Soke, formando sua própria arte: Daitoryu Aikibudo (reformulanfo as técnicas e o currículo, seu grupo foi conhecido como Daitokan Dojo). Outros usaram vários nomes: Daitoryu AIKIDO/Kansai AIKIDO (por Hisa Takuma Shihan, depois seu grupo mudou o nome para Daitoryu Aikijujutsu Takumakai), Daitoryu Aikijujutsu Kodokai (de Horikawa Kodo Shihan), Daitoryu AIKIDO Renshinkan (de Maeda Shihan), Daitoryu Aikijudo (de Yamamoto Shihan, depois o grupo ficou conhecido como Yamamoto-den Daitoryu Aikijujutsu), AIKIDO (de Ueshiba Shihan), etc. Atualmente, o nome mais comum é o Daitoryu Aikijujutsu. Daitoryu é traduzido como a “Grande Escola do Oriente”.

Técnicas básicas

As técnicas mais importantes são as técnicas feitas de joelhos. Elas ajudam a desenvolver o equilíbrio ideal, os movimentos de mãos e nos ensinam o uso correto da força. Depois o aluno deveria aprender as técnicas feitas de pé. Todas são baseadas em chaves de juntas. O ataque às juntas é um método muito eficiente de combate, mesmo não aparentando ser. Mas, para ser eficiente, as técnicas precisam ter aiki: uma habilidade desenvolvida e guardada por Takeda Sokaku Sensei. Infelizmente, apenas Sagawa Sensei foi capaz de adquirir aiki, pois Takeda Sensei não tinha a intenção de ensinar aiki a ninguém.

A história do DAITORYU

Existem várias teorias sobre as origens do Daitoryu. A mais comum diz que de acordo com a tradição oral, Daitoryu foi fundado no século XI por Shinra Saburo Yoshimoto no Yoshimitsu. Ele descobriu as técnicas secretas de como travar pelo reverso as juntas ao analisar corpos de soldados que morreram em batalhas. Yoshimitsu também observou uma aranha tecendo sua teia e descobriu que o que é menor e aparentemente mais fraco, pode facilmente dominar um oponente mais forte e maior. Após estudar esse princípio, por muitos anos, ele encontrou o princípio central que permite que todas as técnicas funcionem contra um oponente mais forte, maior e resistente. Ele chamou isso de aiki. Mais tarde , Daitoryu foi passado adiante através das gerações da família Takeda e foi misturado às artes marciais do clã Aizu. Daitoryu era uma arte secreta, conhecida como Goshikinai/Oshikiuchi, praticada apenas por membros de alta patente dos Aizu. Ele era completamente desconhecido do público em geral até o século XIX. Durante o período Meiji (1868-1912) Takeda Sokaku (o sucessor de 35ª geração do Daitoryu) abriu o Daitoryu para o público em geral, mas apenas pessoas de alta classe social podiam estudar com ele.

Entretanto não há provas de que qualquer arte marcial como o Daitoryu tenha existido antes de Takeda Sensei. É provável que, para dar aulas, Takeda Sensei teve que fazer com que as pessoas acreditassem que o Daitoryu não era invenção dele (o que é comum na cultura japonesa: diversos Fundadores de várias artes marciais atribuíam a origem de suas criações a fontes divinas, monges ancestrais, antigas tradições familiares, etc.). Uma opinião sugere que o Daitoryu Aikijujutsu foi criado unicamente por Takeda Sokaku Sensei, seja o nome da arte, as técnicas, a aproximação tática, ou, por fim, o aiki. Uma única dúvida permanece: como Takeda Sensei descobriu tantas técnicas tão sofisticadas e, mais importante, como ele criou/descobriu o aiki? Mas acredito que estas questões nunca serão respondidas.

Sobre o Buyokan

O Buyokan Dojo é um grupo que pesquisa o Daitoryu Aikijujutsu japonês. Eu tenho estudado artes marciais japonesas (Daitoryu, AIKIDO, Kyokushin Karate) desde 1981. Então, em 1997 eu parei de praticar Karate e comecei a fazer experiências com artes marciais chinesas. Da minha maneira, treinei com alguns professores de Daitoryu e depois me tornei um “discípulo interno” com a permissão de aprender a Escola da Graça Branca – Feeding Crane Boxing (Shihequan) com o mestre Liu, Chin-Long Shifu em Liujia, Taiwan. Também estudei bastante Chen, Pan-Ling Baguazhang e Xingyiquan, com Chen, Yun-Chi Shifu. Eu tive várias idéias e teorias até 2001, quando encontrei Kimura Tatsuo Shihan de Sagawa-ha Daitoryu Aikibujutsu. Desde então eu parei de ensinar Daitoryu e outras artes marciais e passei a em concentrar unicamente na pesquisa do aiki do Daitoryu. Eu me tornei um principiante novamente e, dessa vez, estava muito feliz com isso. Eu não tenho nenhuma graduação no Sagawa-ha Daitoryu Aikibujutsu, assim não posso, nem quero ensinar nada agora. Estou conduzindo minhas pesquisas em Dojos muito pequenos e particulares. Assim eu tenho este Dojo para fazer pesquisas e experiências e não para ensinar.

ARTIGO – Treino Viril e o AIKIJUJUTSU por Ted Howell Sensei (comentários por Wagner Büll Shihan).

Vou compartilhar alguns pensamentos com vocês. Aqueles dentre vocês que tiveram a sorte de assistir ao Aiki Expo em Las Vegas, realizado em maio passado (graças ao esforço de Stanley Pranin, um trabalho bem feito!) e viram as aulas de Sensei Katsuyuki Kondo, da principal linha de Daito-ryu Aikijujutsu, já sabem o quanto essa arte é incrível e dinâmica.

Esta foi uma oportunidade de treinar diretamente com o único detentor vivo do Menkyo Kaiden, diretamente outorgado por Tokimune Takeda (o Soke anterior de Daito-ryu Aikijujutsu).

Eu, continuamente, sou surpreendido pelo conhecimento e sinceridade de Sensei Kondo. Ele é ao mesmo tempo severo e compassivo e represente o que cada americado sonha em encontrar num mestre. Fortemente aconselho a qualquer estudante sério de artes marciais japonesas a observar como um representante direto de Daito-ryu Aikijujutsu incorpora a essência do clássico e verdadeiro BUDO japonês.

Acredito que para, verdadeiramente, estudar AIKIDO como uma arte é importante pesquisar os aspectos histórico e técnico de seus ensinos. Compreendo que O-Sensei criou seu próprio BUDO. Mas a pergunta é: a partir de quê?

Não é mais um mistério que os aspectos técnicos do AIKIDO de O-Sensei foram inegavelmente o resultado de seu relacionamento e longa aprendizagem sob um dos mestres de artes marciais bem proeminentes de seu tempo, Sokaku Takeda. Compreendo ser difícil de imaginar O-Sensei, o fundados do AIKIDO, como um estudante. Mas como todos grande mestres marciais, ele criou o AIKIDO da própria visão do que lhe fora previamente ensinado.

Morihei Ueshiba era um artista marcial severo. Seu relacionamento e aprendizagem com Sokaku Takeda foi de cerca de vinte anos, estando bem documentado. Qualquer de vocês que assistiu ao Aiki Expo deve ter visto as fotografias fornecidas por Sensei Kondo que claramente mostram um certificado de Daito-ryu Kyoju Dairi (permissão para ensinar) pendurado na parede do Kobukan, Dojo do Fundador. Sabe-se, também, que um número de estudantes de O-Sensei antes da II Guerra Mundial, receberam graduações em Daito-ryu e não em AIKIDO como o conhecemos hoje. Em sua juventude, Morihei Ueshiba foi considerado um professor severo, assim como era Takeda. Só pela vida inteira de treinamento diligente e severo, pode a arte hoje conhecida como AIKIDO evoluir.

O Daito-ryu não é um “estilo duro” de AIKIDO. Ele é a antiga tradição secular que deu à luz ao AIKIDO e a numerosas outras artes.

Já ouvi shihans de AIKIDO dizerem que estudar Daito-ryu Aikijujutsu é uma regressão! Ouso divergir e intrepidamente declaro que experimentei de primeira mão a surpreendente  abordagem do aiki encontrada no Daito-ryu que poucos aikidocas têm demonstrado possuir.

Deve ser observado que O-Sensei simplificou muito dos modos antigos devido ao tempo que era necessário para dominá-los. Mas sinto que algo foi perdido e acredito que essa simplificação excessiva criou seus próprios demônios. Acredito que é uma tentativa verdadeiramente vergonhosa de muitos aikidocas pensarem que podem desenvolver um nível de proficiência em AIKIDO que o Fundador só atingiu depois de uma vida inteira de treinamento contínuo.

O modo pelo qual o AIKIDO moderno é apresentado ao mundo é algo decepcionante.

Em maio deste ano, eu assisti ao Aiki Expo em Las Vegas e assisti demonstrações realizadas pelos maiores aikidokas do mundo. A natureza destas demonstrações variou das mais suaves às extremamente poderosas. E embora impressionante, a maioria do que observei envolvia uma falta de atitude marcial real. Os princípios básicos do AIKIDO (tais como movimento, timing e kokyu) estavam lá, mas sinto que em algum lugar do Caminho a natureza marcial do AIKIDO havia sido perdida.

Passei vinte anos treinando em artes marciais japonesas, chinesas e filipinas. Como um agente da polícia e instrutor de táticas defensivas, tive a oportunidade de experimentar muitos contatos físicos diretamente no dia a dia policial.

E sinto que muitos aikidokas enganam a si mesmos ao achar que um agressor descuidadamente atacará e se permitirá ser manipulado como uma boneca de trapo.

O AIKIDO foi fundado nos conceitos que promovem compaixão, paz, amor e harmonia.

Mas escutem cuidadosamente às palavras de Sensei Mitsugi Saotome: “Quando os fortes falam de paz as pessoas escutam, mas quando os fracos falam de paz, ninguém dá ouvidos” (livro AIKIDO e a Harmonia da Natureza). Esta declaração, acredito, diz tudo.

Como podemos, como aikidocas, promover o AIKIDO como uma arte de paz e harmonia se ele é praticado de modo a apenas nos proporcionar um sentimento falso de segurança?

Durante anos, ouvi outros artistas marciais criticarem o AIKIDO por sua falta de severidade e natureza prática. Novamente, argumentarei que a arte não é a culpada, mas a forma branda em que normalmente é praticada e ensinada trouxe tais críticas. Compreendo que as pessoas treinem AIKIDO por uma miríade de razões particulares. Mas por favor, não diga que você treina uma arte marcial a menos que a treine como tal. A arte foi projetada pelo Fundador na tradição do guerreiro japonês e qualquer abordagem que lhe exclua a natureza marcial não é AIKIDO. Isto não significa que um aikidoka deve vestir uma armadura antes do treinamento, mas digo que a mente, corpo e espírito são forjados por desafio e treinamento numa mentalidade marcial.

Em BUDO, as palavras de Morihei Ueshiba estão cheias de imagens do guerreiro japonês e da cultura de guerreiro. O Fundador escreveu: “Perceba que sua mente e corpo devem ser ocupados com a alme de um guerreiro, com uma sabedoria iluminada e uma cultura profunda”.

O Fundador escreveu: “O surgimento de um ‘inimigo’ deve ser pensado como uma oportunidade para testar seu treinamento físico e mental e ver se seu corpo realmente responde de acordo com os própositos divinos”. Mais do que isso, o pensamento do Fundador é extremamente claro quando afirma: “Sempre se imagine no campo de batalha sob o ataque feroz; nunca se esqueça deste elemento crucial de treinamento”.

Penso que o Fundador estava certo de que teve uma visão de paz. Mas esta visão veio da mente de um guerreiro. Um guerreiro que claramente indicou que a iluminação e o forjar do espírito são resultado direto de treinamento severo e diligente.

Retirar a natureza marcial do treinamento também retira a agudeza requerida para forjar a espada do espírito! Tenho treinado Daito-ryu Aikijujutsu desde 1997 e recentemente fui solicitado (ou melhor comunicado) por Katsuyuki Kondo a prestas exame para shodan em outubro deste ano.

Para mim, passar ou não, é secundário ao encarar os desafios que esta prova trará. Como um estudante sério de AIKIDO (atingi o posto de yondan da Aikikai, em maio deste ano), eu sinceramente acredito que meu estudo em Daito-ryu foi inestimável a meu entendimento de aiki.

Acredito que Daito-ryu e AIKIDO são duas partes feitas do mesmo tecido e que um complementa o outro. Se vocês pensam que o AIKIDO e Daito-ryu são mundo à parte, peço que reavaliem suas posições.

Finalizo com alguma palavras do antigo Soke de Daito-ryu Aikijujutsu, Sensei Tokimune Takeda, quando indagado sobre a diferença entre Aikijujutsu e AIKIDO. Ele declarou, “…tenho acompanhado técnicas de AIKIDO no Budokan do Japão mas vejo apenas demonstrações de técnicas macias. Elas não funcionam numa situação de luta real. Os ukes auxiliam se jogando e fazendo lindas quedas.É como se praticassem apenas técnicas para se jogarem. Se seu uke cai numa queda linda, isso faz sua técnica parecer boa. Em nossa prática, nós não precisamos que nossos ukes auxiliem executando lindas quedas. Nós treinamos a projeção dos ukes. Se projetados adequadamente, eles não precisam ajudar na queda. Eles simplesmente caem.” (Conversas com mestres de Daito-ryu).

Espero que essas considerações provoquem alguma reflexão. Se algum dentre vocês está interessado em recuperar a natureza marcial do treinamento, por favor venho ao seminário e experimente de primeira mão o que estou tão desesperadamente tentando explicar.

Para qualquer esclarecimento adicional, por favor não hesite em contatar o Instituto Aiki de Artes Marciais, que oferece instrução em AIKIDO, korindo, Hanbojutsu e Daito-ryu Aikijujutsu. Lembre-se de que nossos esforços não podem continuar sem o apoio forte desses sérios estudos de artes marciais japonesas tradicionais. Para aqueles dentre  vocês que amam as tradições japonesas, mas não podem participar, a colaboração sob a forma de doações é sempre bem vinda. O Instituto Aiki de Artes Marciais é uma organização sem fins lucrativos que conta com estas doações.

Sempre de vocês, no BUDO.

Ted Howell – Dojo Cho, Pinelands AIKIDO, New Jersey.

COMENTÁRIO:

Este artigo escrito por Ted Howell acima, representa a experiência de quem têm visitado Dojos de AIKIDO onde a parte marcial é deixada de lado. Isto é um grande erro. AIKIDO é um BUDO e se não funciona como defesa pessoal, algo está equivocado. Eis porque no Instituto Takemussu sempre procuramos estudar esta arte, como um Caminho de Iluminação Espiritual sim, mas que usa uma arte marcial eficiente de defesa pessoal como ferramenta. É imperativo que o praticante consiga fazer a técnica marcialmente e efetiva como defesa pessoal.

O AIKIDO quando é praticado corretamente como fazia o Fundador, usa os princípios de Aikijujutsu e realmente sem estes princípios as técnicas não funcionam. Mas não é verdade que para se aprender AIKIDO é necessário treinar Aikijujutsu, ao contrário. Em primeiro lugar basta o interessado procurar um Dojo tradicional, reconhecido.  Em segundo lugar existem muitos Dojos de Aikijujutsu que também não estão utilizando as técnicas de aiki e a arte está distorcida. Não se trata de se treinar Aikijujutsu, ou AIKIDO, ou qualquer outra arte marcial. Todas são boas para o corpo e para a mente, quando praticadas corretamente e orientadas por uma escola ou professor experiente. Muito mais importante do que a arte marcial é o professor de arte marcial que escolhemos.

Wagner Büll Shihan – 6º dan de AIKIDO e fundador da Escola Instituto Takemussu e presidente da Confederação Brasileira de AIKIDO – BRAZIL AIKIKAI.

Entrevista – Hiroshi Isoyama Shihan – AIKIDO JOURNAL.

(Tradução: Willian Soares – Nippon Kan Brasil).

Hiroshi Isoyama Sensei – 8° Dan – Aikikai Shihan

Hiroshi Isoyama começou a treinar do Dojo de Iwama com o Fundador do AIKIDO Morihei Ueshiba ainda menino, com 12 anos de idade. Ele é um dos raros indivíduos – outro é Morihiro Saito – a ter sido exposto ao Fundador durante o período de maturação do AIKIDO moderno. Isoyama é apaixonado pelo seu estudo do AIKIDO e o seu dinamismo se reflete em sua técnica explosiva. Agora aposentado, depois de uma longa carreira na Força de Auto-Defesa Aérea, Isoyama devota tempo integral em sua busca, treinamento e ensino. Ele têm se tornado imensamente conhecido internacionalmente devido as viagens para o exterior que tem realizado nos anos recentes.

AIKIDO JOURNAL: Por favor, nos diga como o senhor começou no AIKIDO?

ISOYAMA SENSEI: Foi em 1949, que, como você sabe foi uma época muito difícil para o Japão. Minha família dirigia uma estalagem. Vários tipos de pessoa a frequentavam, incluindo membros da Yakuza, e dado esse fato, eu pensei que seria burrice não aprender algum tipo de arte marcial. Aconteceu que o Dojo local de aiki (ainda não se chamava “AIKIDO”, e o Dojo se tornaria conhecido como “Aiki Shuren Dojo“) havia acabado de iniciar classes para crianças, então eu e outras crianças do bairro nos inscrevemos. Eu tinha doze anos na época.

A.J.: O-Sensei ainda estava morando em Iwama nessa época?

Sensei: Sim, apenas depois de 1955 que ele, gradualmente, começou a fazer viagens para fora de Iwama. O-Sensei ensinava na classe de crianças da noite.

A.J.: A instrução era a mesma do Hombu Dojo em Tóquio?

Sensei: Eu não sei como eram as aulas em Tóquio naquele tempo, mas ele costumava circular pelo Dojo e segurar o pulso de cada estudante individualmente e os ensinava daquela maneira. Ele mesmo não fazia ukemi, mas ele fazia qualquer que fosse a técnica – shomenuchi ikkyo, por exemplo – para cada pessoa no tatame individualmente enquanto todos olhavam. Ele nunca dava nenhum tipo detalhado de explicação.

Não havia tatame no Dojo, então o treino poderia ser bastante doloroso. Essa era uma das razões pelas quais era difícil fazer com que as pessoas treinassem ali. Depois de alguns anos eles, finalmente, colocaram tatame no Dojo, mas nós havíamos treinado no chão por tanto tempo que, no início, tivemos dificuldade em nos ajustar. Se acontecesse de você bater a cabeça no chão, fazia um grande barulho, mas a dor nunca parecia penetrar em toda a sua cabeça. Depois que colocamos o tatame, no entanto, a dor atingia você bem no centro. Naturalmente, a maneira que realizávamos o ukemi mudou quando fomos do chão de madeira para os tatames.

A.J.: Além de Saito Sensei, quem já estava naquela época?

Sensei: Havia pessoas como o falecido Takeo Murata, Sakae Shimada (atual representante da Federação da Prefeitura de Ibaraki) e Sachio Yamane. Em todo caso, como eu disse antes, não havia muitas pessoas treinando naquele tempo. Também, Kunio Oyama, que mais tarde se tornou estudante e profissional de wrestler Rikidozan e pessoas que estavam lá como uchideshi.

A.J.: Eu sei que o senhor acabou se juntando às Forças de Auto-Defesa Japonesa.

Sensei: Sim, eu me alistei nas Forças de Auto-Defesa e fui enviado à Chitose em 1958.

A.J.: O senhor fundou um clube de AIKIDO lá em Chitose?

Sensei: Sim. No início meus únicos estudantes eram membros da polícia militar americana, mas, por fim, eu fui solicitado pelo comandante da guarnição para ensinar os membros das Forças de Auto-Defesa Japonesas também. Eu aprendi inglês lá também, devido a necessidade.

A.J.: Durante a sua recente visita em Los Angeles o senhor ensinou em inglês?

Sensei: Sim, totalmente em inglês! Que outra língua?! (risos)

A.J.:Uma vez que muitos de seus estudantes entre os membros da polícia militar americana deveriam ser fisicamente maiores que o senhor, o senhor teve que improvisar novas maneiras de fazer suas técnicas funcionarem com eles?

Sensei: Eu certamente tive. Praticar com pessoas como aquelas é totalmente diferente do que trabalhar com pessoas menores que você. Fazer mesmo alguma coisa como ikkyo contra um oponente muito maior é muito difícil, especialmente em termos do modo que você deve entrar e do “timing” que você têm que utilizar. Treinar com pessoas como aquelas foi uma grande experiência da qual eu aprendi muito.

Minhas técnicas de kataguruma e gansekiotoshi, por exemplo, começaram quando eu comecei a ensinar koshinague. Quando eu tentava realizar o koshinague em alguns daqueles homens altos eles podiam simplesmente pisar em cima de mim; não importasse o quanto eu tentasse a técnica, eu não conseguia arremessá-los porque a diferença de altura significava que eu não conseguiria encaixar os meus quadris em uma boa posição em frente aos quadris deles. Então eu tive a idéia de tentar colocá-los atravessados em meu ombro ao invés de atravessados nos meus quadris, e foi como eu comecei a utilizar essas técnicas. Eu não estava tentando ser bruto ou espalhafatoso, eu estava apenas tentando fazer com que a técnica funcionasse. A necessidade é a mãe da invenção!

Lá em Chitose havia muitos lutadores de wrestler e de box e outros que igualmente vinham caçoar do trabalho que estávamos realizando. Devido ao alistamento do período de guerra, havia todo tipo de pessoa dentre os militares americanos. Normalmente durante a prática de AIKIDO você entra e aplica a técnica enquanto o oponente está se movendo com o seu ataque, mas quando eu fazia isto muitos deles reclamavam que ainda não estavam prontos; eles queriam que eu deixasse que eles me segurassem bem ou me estrangulassem e, então, vissem se eu ainda era capaz de realizar as minhas técnicas. Normalmente em minha prática o oponente ataca de frente e se move ao redor do nague, então o uke não têm chance de aplicar o seu ataque de forma completa. Mas isso não os convencia e eles queriam, primeiro me agarrar firmemente e depois me desafiar a tentar sair.

A.J.: Em outras palavras, o senhor teve que atuar sob as circunstâncias mais difíceis.

Sensei: Havia um camarada, lutador de wrestler que havia ficado em sexto lugar nas Olimpíadas de Helsinki, que rolou no chão e me agarrou por trás de modo que eu não podia utilizar minhas mãos e pés, e, daquela posição me desafiou a tentar me mover. A única parte de meu corpo que ainda estava livre era a cabeça, então eu bati com a minha cabeça para trás em seu rosto e bati na cartilagem de seu nariz com a minha cabeça. Isto é proibido no wrestling, obviamente, mas essas regras não se aplicam no BUDO. Enquanto eu atingia o seu rosto eu soltei um kiai (grito) e utilizei a abertura momentânea para me livrar. Eu lhe disse então: “Isto é BUDO“! E ele se convenceu. Esse tipo de coisa acontecia quase que diariamente.

A.J.: Alguma vez o senhor falou com seus estudantes americanos a respeito do Fundador, Morihei Ueshiba?

Sensei: Sim, eu cheguei mesmo a levar alguns dele à Iwama para encontrá-lo. Eles não acreditaram quando me viram ser jogado para todos os lados do tatame por O-Sensei. Eles disseram: “Como pode alguém como você, que pode nos jogar a todos facilmente, ser jogado por aquele homem velho?!” Eu repliquei: “Isso é o que eu gostaria de saber” (risos). Eu expliquei que AIKIDO não tinha nada a ver com a idade da pessoa. Eles me perguntaram se poderiam tentar agarrar o O-Sensei eles mesmos, e um dos mais entusiasmados tentou e foi derrubado e aprisionado no mesmo instante em que tentou. Eles não entendiam como eles haviam sido controlados daquela forma; eles apenas sabiam que haviam sido controlados.

Na última vez que estive nos Estados Unidos eu encontrei um daqueles ex-militares que haviam sido meus estudantes. Eu não o via por quarenta anos. Depois de ter conseguido o seu shodan ele retornou para os Estados Unidos, se graduou  por uma universidade em Boston e, depois, serviu como oficial no Vietnam. Depois ele entrou para o FBI onde, por muitos anos, esteve envolvido no ensino de técnicas de aprisionamento, ou o que nós poderíamos chamar de “taihojutsu” em japonês. Ele utilizou a internet para me ajudar a encontrar alguns daqueles que haviam sido meus estudantes naqueles tempos. É maravilhoso a forma que o AIKIDO constrói relações como aquelas. Mesmo se você as perde por um tempo, sempre há um caminho através da qual elas retornam para você novamente.

A.J. : BUDO como uma tendência do AIKIDO. Como você diria que a sua ênfase na importância do BUDO no AIKIDO se desenvolveu?

Sensei: Uma vez que eu esteja na posição de ensinar AIKIDO, eu sinto que eu tenho que me manter orientando em uma direção consistente. Pessoas praticam AIKIDO por uma variedade de razões – para se manter em forma ou para manter a saúde, entre outras coisas – , mas é claramente o BUDO que é o fio condutor por trás do AIKIDO. Não há problema com pessoas que praticam AIKIDO simplesmente para se manter a forma, mas eu acho que elas também devem cultivar o tipo de vigilância que nos leva constantemente a evitar mostrar aberturas a potenciais oponentes. Isto é um aspecto importante do BUDO, e eu acho que negligenciar isso ou permitir que se torne uma parte menor de nosso treino resultará em uma divergência do real espírito do AIKIDO.

O pensamento do Fundador mudou no decorrer dos anos entre o tempo que ele começou a ensinar AIKIDO e no final de sua vida, então naturalmente os tipos de movimento que ele utilizava também mudou. Houve poucas pessoas que tiveram contato direto com ele durante a passagem de várias décadas, então de diversas maneiras, é como a velha estória dos três homens cegos tocando diferente partes de um elefante e dando diferentes descrições de como um elefante é. Nesse sentido, eu me pergunto se existe alguém que compreenda a grandiosidade de O-Sensei de forma completa.

Algumas pessoas estavam em contato com O-Sensei quando ele estava disseminando AIKIDO puramente como BUDO; outros apenas começaram a aprender com ele depois que o seu pensamento se desenvolveu de forma a enfatizar o AIKIDO como “o Caminho da Harmonia”; ainda há outras pessoas que estudaram com ele, mais tarde, em diferentes períodos de sua vida. Todos terão diferentes pontos de vista e interpretações, e eu não acho que seja possível se dizer que qualquer um desses pontos de vista seja melhor do que o outro.

Eu também acho que há diferenças dependendo da idade do estudante. Pessoas mais jovens naturalmente procuraram um tipo mais forte de AIKIDO, enquanto pessoas que eram mais velhas podem ter mergulhado em aspectos tais como a harmonia e o espírito, e então isso foi o que cada um absorveu do O-Sensei. Aspectos como esse mostram como é difícil se falar no AIKIDO em termos claros e precisos.

Como você sabe, O-Sensei nunca escreveu muito a respeito de AIKIDO em livros, embora algumas técnicas tenham sido registradas no [livro] BUDO. Algumas vezes eu me pergunto porque ele não escreveu mais a respeito do AIKIDO, mas, por outro lado, eu acho que posso entender. Seu pensamento se desenvolveu gradualmente, e ele deve ter pensado que qualquer coisa que tenha escrito em sua juventude poderia entrar em contradição com seu pensamento posterior. A mesma verdade se aplica a suas técnicas. Se ele tivesse dito algo definitivo sobre elas em um determinado ponto, ele poderia acabar se contradizendo depois conforme ele evoluísse.

Outra dificuldade é que pessoas diferentes tendem a interpretar as palavras de O-Sensei de modos diferentes, embora ele possa ter dito a mesma coisa para todas elas. As pessoas então terminam por expressar sua própria interpretação como se elas tivessem absorvido tudo o que ele quis dizer, elas acabam provocando pequenas variações e, eventualmente, alguns enganos.

Quando O-Sensei ensinava ele nunca dava nenhum tipo particular de explicação. Uma das razões era que muitas pessoas que vinham treinar com ele faziam parte de uma certa camada alta da sociedade; por exemplo, oficiais militares, políticos, praticantes de alto nível de outras artes marciais, pessoas do setor financeiro, chefes de empreendimentos privados, e outras pessoas bem estabelecidas e respeitadas em seus campos de atuação. Dar muito detalhe para pessoas como essas, por exemplo, ensiná-las coisas como: ” Este é o modo adequado de se fazer uma inclinação [saudação]” entre outras coisas poderia ser considerado desconcertantemente ofensivo.

Durante a prática O-Sensei geralmente falava em linguagem honorífica com indivíduos da alta camada social bem como com seus estudantes regulares. Eu me sentia muito tocado por aquela atitude e pela forma com a qual ele interagia com as pessoas.

A.J.: Um exemplo pode ser o debate a respeito do atemi, que raramente é aplicado como parte das técnicas de AIKIDO. Quais são os seus pensamentos a respeito do uso do atemi, a partis de uma perspectiva combativa?

Sensei: Realizar um atemi por realizar um atemi resulta em nada mais do que uma forma vazia. Não existe razão de se usar atemi a não ser que o seu golpe seja do tipo que tenha um efeito real. Um atemi não tem, necessariamente, que ser um sopro mortal, mas deve ser capaz de provocar uma certa porção de dano real. E mais, se você quer pensar seriamente a respeito de atemi, você também tem que pensar a respeito de chutes.

Karate, por exemplo, possui excelentes técnicas de socos e chutes. Eu devo dizer que a maioria dos movimentos de Karate é predominantemente retos, enquanto que o AIKIDO tende a enfatizar os movimentos esféricos. Ambos possuem pontos fortes e aberturas e eu não acredito que você possa dizer incondicionalmente que um seja melhor do que o outro. Em todo caso, se você vai utilizar socos e chutes como atemi no AIKIDO, você tem que pensar constantemente a respeito de como incorporá-los de forma a adaptá-los ao “timing” e levar em conta outras características do movimento do AIKIDO.

A.J.: A controvérsia das armas. O uso de armas no AIKIDO é outro assunto que possui um número de diferentes pontos de vista. O senhor acredita que as armas possuam um papel no treino de AIKIDO?

Sensei: Eu definitivamente acredito que elas possuam. Técnicas como tachidori (técnicas de desarme de espadas) e jodori (tecnicas de desarme de bastão) são incluídas nos exames de nível de dan, e pessoas que só estiveram treinando técnicas à mãos livres não serão capazes de executá-las, não é mesmo?

E mais, se você não tem um bom domínio de técnicas de armas, não há como você ser capaz de responder adequadamente quando o seu oponente tem uma arma. Você acha que você vai ter algum sucesso se um conhecedor de Kendo desafiar você a tentar o tachidori do AIKIDO contra a sua espada? Ou se um praticante do Muso-Ryu Jo der a você uma chance de tirar o seu Jo, você seria capaz de fazer isso facilmente? Eu duvido.

Eu acredito que técnicas de armas são extremamente importantes, mas eu também acho perigoso treiná-las de forma superficial; se você vai treinar técnicas de armas, então as pratique de forma apropriada e profunda. Esta é uma razão pela qual eu acredito que existe muita necessidade de se estudar práticas como o tachidori e jodori em muitas variações. Tantodori (técnicas de desarmamento de facas), também, é uma coisa que eu pratiquei contra uma lâmina real, mas apenas algumas variações. Tudo o que você precisa é de uma ou duas técnicas, e se você realmente as dominar, então eu acho que você está bem equipado para se defender contra tais coisas. Obviamente, toda vez que armas estão envolvidas sempre haverá um elemento de perigo.

Uma vez que nós não podemos praticar com lâminas de verdade no Dojo, nós utilizamos espadas de madeira (bokuto), mas se você quer tornar o seu treino tão efetivo quanto possível é essencial que você pense no bokuto como uma lâmina de verdade, não apenas um pedaço de madeira. Isso inclui realizar seus ataques de modo rápido e decisivo e cheio de intenção. Você não será capaz de cultivar o grau apropriado de seriedade se você está cortando de forma que o único próposito seja realizar um ukemi. É uma boa idéia ter esse tipo de coisa no fundo de sua mente quando você estiver treinando com armas.

Geralmente é dito que não há competições no AIKIDO. Eu penso que há diferentes dimensões de significado para isso, mas O-Sensei uma vez disse: “Vitória e derrota são meramente relativos, de forma que o AIKIDO não busca a força relativa, mas a força absoluta. Portanto o AIKIDO é o treino diário para se ‘vencer antes de lutar’.”

A.J.: Como o senhor acha que era a visão do Fundador sobre as técnicas de armas? Por exemplo, de acordo com Morihiro Saito Sensei, o Fundador treinava muito com armas e, consequentemente o AIKIDO de Saito Sensei contém muitas técnicas de armas. Por outro lado, outros apontam que o Fundador não ensinava armas no Hombu Dojo, e, de fato, se zangava quando as pessoas treinavam armas lá.

Sensei: Eu acho que é provavelmente verdade que O-Sensei não ensinasse técnicas de armas no Hombu Dojo. Isso talvez se desse porque ele não tinha muito tempo para treinar lá. Quando ele estava de volta à Iwama ele tinha bastante tempo para esse tipo de coisa, e aqueles dentre nós que estávamos lá aprendíamos armas como a Ken [espada] e o Jo. Então o que Saito Sensei diz é correto, e também está certo o comentário de que O-Sensei se zangava se as pessoas praticassem armas no Hombu Dojo. De fato, eu mesmo vi o O-Sensei zangado, embora fosse porque as pessoas estivessem fazendo técnicas de espada em duplas (kumitachi) embora elas ainda não fossem capazes de realizar os movimentos solo (suburi) muito bem. Eu acredito que o O-Sensei considerava que se seus estudantes fossem estudar espada eles tinham que fazer isso de modo apropriado e ele se zangava se visse que seus alunos estavam apenas balançando suas espadas como se tivessem em alguma encenação de um drama samurai.

Uma vez, para uma demonstração com Saito Sensei – eu acho que quando eu era sandan – eu pergunteu ao O-Sensei se eu poderia utilizar uma lâmina de verdade em nossa apresentação de tantodori, mas ele rejeitou a idéia. Eu acho que ele tinha um entendimento mais claro de minhas reais habilidades do que eu tinha na época e sabia que isso não seria uma boa idéia. Pouco tempo depois eu utilizei uma lâmina de verdade em uma demonstração na qual o O-Sensei não pôde estar presente e, claro, eu me acidentei. Eu me senti tão estúpido, e foi necessário que eu me ferisse para descobrir porque ele tinha negado o meu pedido na primeira vez.

A.J.: Há pessoas que praticam outras artes marciais junto com seu AIKIDO, por exemplo misturando o AIKIDO com Iaido ou Karate. Alguns estudam Karate para descobrir maneiras de lidar com socos e chutes, enquanto outros estudam Kendo para aprender mais sobre o modo de cortar e atacar.

Sensei: Eu acho que é bom fazer esse tipo de coisa até um certo ponto, mas eu também acho que se você leva isso muito além, colocando isso à frente de seu treino, é provável que você transforme o seu AIKIDO em mera luta. No final corre-se o risco de se assumir uma atitude de desafio a outras formas de BUDO pensando em como fazer melhor do que elas ou como vencê-las.

ARTIGO – Steven Seagal, o fim do mito.

(por Art Marciaux Traditionnels d’Asie)

A revista Art Marciaux Traditionnels d’Asie, francesa, publicou uma reportagem sobre o seminário que Steven Seagal fez em Paris neste ano de 1999. Nela fica claro a decepção dos aikidoístas franceses com esta pessoa, que se divulgou bastante o AIKIDO no mundo todo com seus filmes, por outro lado, o fez de uma maneira diversa daquela pregada pelo Fundador da arte, como um Caminho de paz e não de violência. Parece que Steven Seagal se distancia cada vez mais da arte do AIKIDO, chegando mesmo a abraçar uma seita budista e atualmente ter inclusive um novo mestre, chamado Norbu Rinpoche (ver foto). Esta mudança de filosofia vai levando cada vez mais este aikidoísta, que o cinema fez famoso, para longe de ser um exemplo a ser seguido. Comentários dos dois principais mestres do AIKIDO franceses na atualidade, Christian Tissier e Gerard Blaize – ambos 7º dan do Aikikai – criticaram severamente o mesmo, chegando a dizer que ele não pode mais ser uma referência para o AIKIDO. Que sirva esta reportagem como um alerta para os aikidoístas brasileiros, para que saibam distinguir realidade da fantasia hollywoodiana que o cinema cria.

Abaixo a carta aberta que André Louka escreve para Seagal, descrevendo a opinião geral dos franceses.

CARTA ABERTA À STEVEN SEAGAL.

Meu caro Steven,

Cyril Dahan, um dos organizadores com Richard Laubly de sua vinda a Paris, me tinha proposto, com sua acordância, uma entrevista contigo. Eu confesso que a idéia de entrevistá-lo e de reencontrar um dos três 7º dan – não japonês – do Aikikai e uma estrela de cinema, me agradava bastante.

Nesta perspectiva, eu tinha reunido todos os elementos que dispunha: artigos de imprensa concernentes a você e seus propósitos, recolhidos por seus alunos para a realização, me parece de um livro. Eis o que pude saber sobre você.

Nada o destinava a se tornar um mestre de Aikido, uma estrela e porfim, um TULKU. Mas os acasos da vida que fazem e desfazem os destinos, lhe mimaram.

Vindo ao mundo em 10 de abril de 1952 no Michigan, venceste a vossa pequena infância em um subúrbio de Detroit, a cidade dos carros. Eu pensei nisso depois, quando vi que uma limousine blindada com motorista lhe esperava permanentemente durante os dias que passaste em Halle Carpentier.

Seu pai, Steven, era professor de matemática em um liceu; enquanto sua mãe, Pat era técnica médica. Era uma família de classe média. Seu pai era rigoroso, mas liberal. Mais tarde tu disseste que tinha sofrido e que cujo sofrimento, custou a afeição por seu pai. Tu sofreste, o que fez Pat o conduzir com suas três irmãs à Igreja.

Tu mudaste para a Califórnia. Aos quinze anos com sua primeira acne, decidiste que era tempo de viver só. E deixaste o teto familiar. Nada de tão extraordinário, pois dezenas de milhares de adolescentes exprimem cada ano sua vontade de independência desta maneira.

O acaso – o primeiro – te faz reencontrar Kyoshi Ishasiki, um professor de Aikido de Conté d’ Orange. Ele o pega sob suas asas e lhe ensina a sua arte e o sentido da vida. Tu és um bom aluno e ele o utiliza como uke para as demonstrações no vilarejo Japonês de Deer Park. Você parecia ter pego gosto pela cultura asiática.

Com dezenove anos, em 1971, partiste ao Japão para confidenciar mais tarde a uma revista americana “Wallpaper” que foi uma espécie de viagem pioneira para se conhecer, para ir em direção a Deus e para estudar com os mestres.

Koichi Tohei, 10º dan que conviveu com o fundador do Aikido, lhe confere o primeiro dan em 1974.

Como você se arrumou para viver, a história não diz.

Um segundo acaso sobrevêm na sua vida, conheceste o rosto de uma jovem japonesa, Miyako Fujitane. Ela é bonita e sobretudo vêm de uma família rica. Seu pai é afortunado e possui em Osaka uns terrenos e um Dojo, construído em 1974, com uma superfície de cem tatamis.

Sobre esses terrenos, cada imóvel valia algumas dezenas de milhões de dólares certamente.

Acontece que o professor do Dojo em destaque, após vossas confidências, estava na cumplicidade com a Yakusa (A máfia japonesa). Nesse interim, Miyako se torna sua esposa e vocês passam a ser  alvo da Yakusa. Pegando sua coragem com as duas mãos, tu foste vê-los para afrontá-los. Sem dúvida impressionado com seu Ki, eles decidiram deixá-lo em paz. Seu tio, cheio de reconhecimento o coloca no lugar daquele professor indelicado. Eis você lá em 1975, ou seja, um ano depois de seu primeiro dan, chefe-instrutor e o único branco a dirigir um dojo em solo japonês: o Tenshin Dojo em Osaka. Tu adotaste até um nome Japonês: Shigemichi – que quer dizer: “ guerrear sobre a estrada da prosperidade” – Take, o nome do seu tio – em sinal de agradecimento, eu suponho.

Você teve duas crianças com Miyako. Kentaro que deve ter vinte e um anos hoje e Ayako, com dezessete anos. Para ti a vida começava sob bons auguros, se não pelo o amontoado de problemas que você teve com os praticantes japoneses.

Você lamentou da hostilidade dos mestres japoneses, que não tiveram nenhuma consideração com você, uma vez que era um gaijin (um estrangeiro). Tu sofreste como admitiste mais tarde: “eles jamais quiseram me levar a sério. Me aceitar como ushi dechi (aluno interno) e pensavam que meu trabalho era não fazer nada à porta de seus Dojos, assim não teriam que me ensinar seja o que fosse.”

Você atribuiu seu ostracismo aos maus exemplos dado pelos americanos e outros estrangeiros que passaram nos Dojos antes de ti.

Com efeito,  eles vêm, dizem efetuar o seu serviço militar e estudam entre seis meses e dois anos. Ao fim de seu tempo, eles conseguem o 1º dan e pensam em ser professores.

Esta é a observação exata. Com efeito, bastante soldados americanos voltaram aos Estados Unidos depois de uma formação incompleta e foram promovidos a mestres. Mas, notamos que eles tiveram menos audácia que você, pois colocaram entre eles e seus mestres, alguns milhares de quilômetros.

Mas você, Steven, não era pouco mais que um simples faixa preta recém graduado, quando começaste a ensinar o Aikido e ainda por cima com o mercado repleto de japoneses. É sabido que os outros professores, seus concorrentes, eram no mínimo cinco vezes mais graduados do que você.

Isto era talvez um erro da juventude, mas a seus olhos era uma provocação. Você teve a sábia idéia de pedir o apoio de Hikitsuche Sensei, 8º Dan e mestre de Gérard Blaize, o mesmo professor de dois organizadores de vossa vinda a França. Ele se lembra bem de você e das dificuldades que você teve, quando teve que se comparar com os especialistas como Kobayashi que ensinava em Osaka.

Eles lhe ajudaram. O doshu, Kisshomaru Ueshiha, veio na inauguração do Tenshin Dojo em 1976 e o distinguiu, conforme Stanley Pranin um 5º ou 6º dan que o colocava em uma posição de instrutor em conformidade com a tradição. Esta foi uma promoção rápida sem merecimento real e o fato é indiscutível, pois se sabe do tempo obrigatório de prática que deve passar entre cada graduação que você pulou. Melhor ainda, eles lhe aconselharam a ensinar além do que você tinha aprendido com eles.

Você teve a sabedoria de seguir o conselho, pois sabia muito bem das dificuldades. Foi assim, que depois de estadia de dez anos, em 1982, você voltou ao seu país.

Você abriu um Dojo em Tao no Novo México, depois em Los Angeles. Por que na cidade de Los Angeles? Porquê neste momento você estava repartindo a sua vida com uma atriz, Kelly Lebrok, que tinha conhecido no Japão. Ela esperava um bebê seu em 1986. Você a desposou em 1987 em Beverly Hills, após ter se divorciado de Miyako, a mãe de seus primeiros filhos. Quanto a Kelly, ela será mãe de Analiza, Dominic e Arrissa. O encontro com Kelly seria um novo acaso decisivo em sua vida.

Em Beverly Hills seu Dojo é freqüentado pelas vedetes de Hollywood. Encontraste Michael Orvitg – ainda um acaso – um homem que faz chuva e bom tempo na meca do cinema. Ele o apresentou a Terry Semel, o presidente da Warner. A seqüência conhecemos: seu primeiro filme “Nico” é um sucesso, três outros se seguem com o fenomenal ” Under Siége” que faz em 1992 seu cartão de visitas. Eis você estrela, rico de milhões e de uma popularidade quase indestrutível, firme.

Só há um problema, a imprensa americana não gosta de seus filmes que julga serem inutilmente violentos – o que eu não creio. Entre eles e você, as relações são catastróficas o que não contribui para a sua popularidade.

É nesse momento que escolheste assumir a causa tibetana, como o fez Richard Gere dezenas de anos antes, quando isto não estava ainda na moda. Você aparece como um oportunista e a imprensa lá não lhe perde de vista.

Nancy Griffith em um artigo “o buda de outro planeta” lhe critica violentamente, propriamente e como devo lhe dizer, com certo humor. Ela afirma que você não mantém sua popularidade, por causa de sua “arrogância” e sua falta de humor nas entrevistas.

Ela o critica de misturar em seus filmes – em particular ”Glimmer man “ – o budismo tibetano, as rudezas de linguagem e a violência, retomando uma confidência de seu cálculo: “esta é a única pessoa capaz de empregar uma grosseria e de citar o Dalai Lama em uma mesma frase”. Isso quer dizer que sua imagem está desgastada. Ela zomba de você e de sua súbita e tardia conversão ao budismo e a causa tibetana pois, de acordo com ela, “ Sua carreira estagnou depois de 1992”.

A história é um perpétuo recomeço. Com dezenove anos você partiu para o Japão à procura dos mestres das artes marciais e eis que em 1995 com 43 anos você divide as opiniões, os mestres, mas desta vez tibetanos.

Você tinha ido ao Japão para se encontrar interiormente em uma busca pessoal, e , aparentemente não estava ali pôr oportunismo. Mas desta vez, isso foi feito obviamente já que você “descobriu” que numa vida anterior eras Chokden Dorje, morto no século XVII.

Minha co-irmã conta como você fretou um avião para sobrevoar o subcontinente indiano, visitando os mosteiros e cortejando os lamas.

Você se ligou a Penor Rinpoche, o chefe supremo de uma tradição budista tibetana – o Nyingma. Este, como um feliz acaso – ainda um outro em tua vida – começava, conta ela, a estabelecer centros de ensino nos Estados Unidos. Seagal fizera doações generosas a sua organização convidando-o as suas custas a ensinar em Los Angeles.

Norbu Rinpoche – o novo guru de Seagal.

O ano passado, Seagal disse em seu círculo de amizades que pensava ter sido um homem santo em sua vida anterior. Seus amigos afirmam que ele se confessava a seu Guru e lhe pedia para ser reconhecido, o título de Tulku é conferido àqueles que provam que são dotados de excepcionais qualidades espirituais. Eles são destacados desde sua infância, uma dúzia ou mais, ao todo a serem reconhecidos no mundo ocidental. Seagal ia ser um deles.

Ele descreve a cerimônia: “Fevereiro último, Penor Rinpoche reuniu cento e cinqüenta religiosos na sala principal, ricamente decorada do mosteiro Namdroling em Bylakuppe, na Índia. A estátua gigante do Buda estava iluminada de lâmpadas a óleo. Depois dos cantos de oferenda e as preces, o Lama anuncia aos fiéis que ele tinha tido vários sonhos e sinais de premonição que Steven Seagal era a reencarnação de um lama-Chokden Dorjee, falecido há muito tempo e que era um ‘Terton’  – quer dizer um revelador de tesouros. Penor Rinpoche informa a Seagal que ele tinha grande obrigação de ensinar aos outros.” As longas trombetas se refletem a soar e a estrela de filmes de ação coloca seus dois metros sobre um largo trono combinado com almofadas de seda. Com solenidade, o mestre das artes marciais era reinstalado no assento que ele ocupava na sua vida anterior.

Ninguém pode ser mais duro! Minha cruel co-irmã prosseguia:

“ Via Internet o site budista se põe a sussurrar que o “Tulku de Tinsel Town” tinha comprado seu título como um barão da idade média.”

Alegação que o porta-voz de Seagal desmentia, insistindo que a estrela tinha recebido o título por seus próprios méritos.

A suspeita de um caso de venda de título de lama se apossa dos praticantes mais tradicionais.

Além disso, o Dalai Lama se diz de modo geral “concernido pela proliferação dos Tulku e de outros abusos cometidos pelos lamas do ocidente”.

Ele emite “reservas quanto aos Tulku que se autodescobriram”, colocando fortemente em guarda os budistas. “Vós deveis seriamente examinar, antes de aceitar alguém como guru e mesmo depois, seguir este mestre dentro dos limites da razão”.

Nancy Griffith conta em seguida como você fazia os pés e as mãos para aproximar-se do Dalai Lama, indo até recolher U$ 25.000,00 do lucro de uma fundação para a qual ele devia levar a palavra. Você pediu e obteve uma mesa central na primeira fila.

E quando você era assíduo, na primeira fila, às conferências cotidianas que o Dalai Lama dava em Los Angeles.

E como, enfim, os organizadores da conferência sobre a paz, a qual o Dalai Lama devia se expressar, recusaram de te colocar sob o mesmo local que ele.

Nancy Griffith conclui seu artigo citando um budista de longa data: “ o maior perigo é que ele erga um templo no seu último pátio, ali construa um trono e se torne um guru”.

Ele não estava só aparentemente a pegar por sua conta um título de Tulku obtido em contrapartida pelas doações.

As acusações lhe machucaram certamente, mesmo se no curso da entrevista com Larry King da CNN, tu afirmaste não estar “nem em cólera nem ultrajado”.

Você contra atacou depois de ter lembrado que Walter Isaacson é Judeu e redator-chefe da Time Magazine: “Com efeito eu dei enormes somas de dinheiro à comunidade judaica, aos hindus, aos católicos e aos protestantes”.

Eu me pergunto o que aconteceria se a Time Magazine escrevesse em um artigo que todos os rabinos judeus estão implicados no tráfico de pote de vinhos, porquê eles receberam dinheiro de mim.

Eis aí o que sei sobre ti. Mas o que me deixou um momento, perplexo é a antipatia que você suscita junto aos meus irmãos. Eu não posso pensar que sois vitima de uma teimosia, ainda que sua arrogância e sua falta de humor não resolva seu nível de popularidade, dizem mas a te criticar da sorte!

Eu refleti e me perguntei: E se você faz intencionalmente de ser antipático, isso explicaria seu comportamento ao mesmo tempo que tens desejo de se juntar nas abas do vestido acefrão do Dalai Lama?

O reconhecimento da sua reincarnação não é suficiente?

Está fora então o Satori – a iluminação. Na realidade você não quer ser mais mestre de Aikido, estrela e muito menos “Tulku”. É vosso desejo o mais secreto e tudo o que fazes visando alcaçar o que almejas.

Este pressentimento me fora confirmado pela continuação ao curso de sua permanência em Paris. Você procura se mostrar forte. Mas é necessário isto quando alguem quer conseguir um objetivo, eu convenho.

Depois da sua partida, aqui na França, os praticantes, alunos de Steven Seagal, fizeram uma reunião para trocar suas opiniões e demonstraram estarem decepcionados tanto por seus ensinamentos quanto por suas demonstrações.

Não aquele de sábado a noite, mas aquele de domingo, no dia seguinte. Se os organizadores, participantes e observadores curiosos não compreenderam isso que você queria fazer compreender, é porquê eles são prisioneiros de sua própria ilusão, que como se sabe, é uma das doenças do espírito para um budista.

Com efeito, se imaginando – como se eles podessem estar em seu lugar, completando sua tríplice missão, e considerando todo o sofrimento que tu passastes para chegar nesta altura, eles tem precocemente, eu o admito – pensando que tu farias tudo para se manter ali. Em particular e no que lhe concerne, tudo elaborado para se assegurar de sua simpatia.

Por te conhecer melhor, eu sei que isto não é verdade, e que seu objetivo não é tornar-se um mestre de Aikido, estrela ou Tulku. Vosso objetivo profundo é ao contrário se desfazer de tudo isso.

Eles não podem imaginar as contrariedades que você teve quando era chefe – instrutor do Teshim Dojo em Osaka. É preciso dar exemplo e é preciso treinar, se aperfeiçoar permanentemente. Estar sempre sobre o que vive, ou então onde se possa detectar suas insuficiências sobretudo se és vaidoso de alguns conhecimentos.

Ser sensei e ainda mais 7º dan depois que o Doshu Kisshomaru o distinguiu antes de morrer – é muito pouco, pelo que já deste ao Japão.

E a vida de estrela, é o amor, a glória e a beleza? O dinheiro, as belas mulheres? Não, é a obsessão de não mais estar em primeiro lugar no box-office. Ser maltratado pelas críticas que a maior parte do tempo, escrevem seus jornais sensacionalistas sem mesmo ter visto o filme. Tudo isso aí eles não sabem. Eles acreditam que você é bastante estúpido para não colocar tudo no trabalho e perder. Estes imbecis destes jornalistas que não compreenderam nada, te imobilizam no pelourinho como se você não fizesse bastante esforço para perder tudo.

Mas então porque ser erguido tão alto para querer cair em seguida? Por que, me diz, para bem cair é preciso subir o mais alto possível . Elementar meu caro! Mas, uma vez subido alto, não é fácil, infelizmente, de abandonar malgrado toda sua vontade.

É verdade que quando lhe vi na manhã de 13 de junho, eu medi os esforços elevados que você tinha certamente querido manifestar até o presente. Você que era antigamente tão magro, tão belo, engordaste e sua face está gorda, tal qual de um pró cônsul romano que teria abusado da boa comida.

Então, durante sua permanência em Paris, fostes formidável na operação de auto-demonstração. Sente-se uma estratégia bem pensada e isolada que Sun Tzu não teria renunciado, o estrategista chinês, autor da “Arte da Guerra”. Porque é bem isto que ele se refere.

Você, “o guerreiro sobre a estrada da prosperidade” – que idéia de ter escolhido um nome cheio de dever – tens aplicado com mão de mestre sua estratégia.

De antemão, que maestria na escolha e na arte de suscitar as vocações para conduzir sua política.

Eis aí duas pessoas jovens, presas de um interesse tão brutal que querem ajudar a uma infância maltratada. Eles querem juntar dinheiro para dar a uma causa. Isso lhe motivou quando lhe propuseram se associar a sua operação como se tivesses o desejo deles. Umas doações a causas você bem fizeste, outras antes e outras ainda o fareis certamente no futuro. Eles são honestos – parece – e remeteram um cheque de 100.000 Francos, para os gastarem, você  aceitou 140.000 Francos para pagar duas noites no hotel – Bristol de acordo e seu bilhete para o Concorde – estimando que os 500.000 Francos , seriam suficientes para cobrir suas despesas de organização. Você aceitou sua proposição ( e eles estavam todos estupefatos e pobres) para melhor servir sua causa colocando-o frente a frente do público e dos outros 7º dan.

Os organizadores anunciam um seminário com o mestre Seagal 7º dan? Você os transformou em um golpe mediador com “figurantes” que pagam, e caro! É um “estágio de Aikido do futuro”. Você fez um sermão sobre o amor ao próximo com um gordo truque do budismo tibetano.

cenas durante o seminário – Paris 1999.

Assim tudo começou na manhã. Estes estagiários reunidos por dez horas, como prevê o programa, estavam sabiamente alinhados em seiza a lhe esperar. Para enganar o tempo, uma espécie de teatro de marionetes bigodudos, entre dois ensaios de microfone e de verificação da sonorização, os fazia realizar alguma coisa que se aproximava mais da ginástica para pessoas da 4ª idade que de uma arte marcial!

E você, com um maligno prazer, nos falam os agentes de segurança, retirado do seu vestiário transformado em templo, rodeado de sua corte de jovens mulheres, você meditou em frente a um pequeno altar, abrigando piedosamente sua foto.

E às 11:30 bem passadas, que os agentes de segurança, colocados em fileira em torno do imenso tatami, que J.P.Nestoux, o encarregado de esporte do 13º distrito decorou com amor e gentileza para receber o estágio do féculo ( felizmente ele termina) começam a se agitar.

Os Walkies Talkies crepitam, vai acontecer alguma coisa. Nesse silêncio, ( Ecce Homo), você, o mestre seguido por jovens mulheres, cercadas por uns seguranças, avança. Isto é muito belo e muito digno.

Chegado ao Tatamí, você pára. Todos o imitam. O que vai acontecer? Eu o vejo elevar sua grossa corrente de ouro, depois seu imponente relógio-de-ouro, eu me pergunto: Não ele não vai fazer isso? Depois tu entregastes suas preciosas jóias a uma de suas acompanhantes.

Verdadeiramente, eu tive medo, que, num gesto como você sabe ter sempre, não encarregasse alguém de dar esses ornamentos inúteis as jovens crianças maltratadas. Ufa! Você tem razão, eles podem ainda servir.

À noite de demonstração, aquela que devia reunir os três únicos 7º dan não japonês, os gentis organizadores, praticando Aikido, animados num sentido político evidente, iam criar o evento.

Vocês três, com Gerard Blaise e Christiam Tissier posaram para uma bela foto de família!

É verdade que na partida, você devia contentar-se em presidir a demonstração, pois Cyril e Richard, muito confiantes de ter conseguido fazê-lo mudar de opinião o anunciam. Eles não aprenderam ainda a desconfiar dos efeitos do anúncio! Os caminhos do Sensei são impenetráveis. Vocês acreditaram na sua participação tanto quanto no demonstrador. Dois Ukes despachados de urgência tinham chegado na véspera. Eles estavam presentes com um terceiro e esperavam sua vez.

Depois da demonstração muito pura de Gerard Blaize e Cristian Tissier, os outros 7 dan, numa perfomance rara que eleva o entusiasmo do público, troveja de aplausos! Difícil se fazer melhor.

Era sua vez. Num grande silêncio – a felicidade é enfim chegada – você levante e caminha em direção ao estado.

Seus ukes se prepararam e você pegou o microfone e não fez nada. Mas que quadro, uma questão de estratégia, você anunciou que as demonstrações, era da figuração (Show-off) e que era hora de dormir para estar descansado no dia seguinte. Genial sua estratégia para não ser comparado com os outros, um duplo golpe não fazer o que anunciaram e sobretudo anular os outros 7º dan. Você precisava, verdadeiramente pensar nisso.

Domingo, sem dúvida prezo de remorso, a menos que aquilo seja um elemento de sua estratégia de auto destruição pensada, você foi demonstrar uma defesa contra três atacantes – precisava que os ukes justificassem as despesas ocasionadas por seus deslocamentos?

Em uma situação dessa, você disse a Larry King da CNN: “Mais forte eles me atacam, e mais forte vem o contra-ataque”.

Demonstração: eles avançam forte sobre você e recuas para enfraquecer a distância. Ai você cai, sem dúvida para tornar a demonstração mais difícil? Eles o atacam. Os pobres, eles são xingados. É preciso retê-los pois eles não compreenderam que a queda não estava previsto na demonstração!

Aquele era um golpe “grande “ contra a sua imagem. De todas as maneiras, Steven, como você sempre disse a Larry King – os Koan, os enigmas são sempre baseados sobre o feitio de saber se o mestre é um mestre ou um idiota.

Você é a prova viva do enigma. Em todos os casos uma coisa é certa, você chateou tanto os gentis organizadores do seminário, que para darem o troco, se esforçaram para se convencerem de terem conseguido “reunir um estágio com oitocentos alunos, então deveria ser um show e eles deveriam reunir cinco ou dez vezes mais” – o que eles não arriscam recomeçar.

Você não fez nada. Eles fizeram o mais pesado. A próxima vez que vier a França, no país onde os queijos fedem, como diz “Sly” a marionete de Sylvester das mentiras, não será mais preciso alugar Bercy nem a Halle Carpentier. Uma cabine telefônica será suficiente para sua felicidade.

Meu caro Steven, eu espero não ter sido muito longo. O que eu tenho a lhe dizer, é o quanto eu gosto por você me fazer tanto rir.

PS: Cyril, o pobre, quarenta e oito horas depois da sua infeliz demonstração não tinha conseguido concordar com você. Ele me telefonou às 23 horas para me dizer que nosso encontro não aconteceria e que me sugeriu fincar o pé no hall do hotel Bristol para reencontrá-lo.

Gentil – mas incorrigível este pequeno – ele impulsionou seu camarada a chamar sua secretária Ben. No hotel, responderam que você tinha partido para cuidar de sua enxaqueca no Crazy.Horse Saloon. Decididamente você tem razão, porque explicou quando as pessoas compreenderam e com qual utilidade quando eles não compreenderam?

Comentários dos dois outros 7 dan que participaram do seminário como instrutores:

“Os organizadores tem cabeça dura se eles pensam que a vinda de Steven Seagal foi um sucesso, porquê houve 800 pessoas. Na verdade foi um Show do qual o Aikido não cresceu, porque o nível e a bagagem técnica demonstrados por Seagal, são muito baixos para um 7º dan.

Se ele não fez demonstração é porque falta treinamento, ele não está em forma. O que restará de sua passagem? É que Steven Seagal não é uma referência para o Aikido!” (Gerard Blaize – 7º dan)


“Eu vi a demonstração que ele efetuou no ano passado no Japão em vídeo cassete. Eu compreendo que ele tenha mudado de opinião . Eu penso que ele teve medo de decepcionar o público.” (Christian Tissier – 7º dan)

ARTIGO – KOICHI TOHEI E O AIKIDO

Koichi Tohei, nasceu em 1920 em Shitaya – atualmente Taito – em Tóquio. Por ser um menino que, volta e meia, encontrava-se doente e frágil, foi levado por seu pai a iniciar os estudos de JUDO.

Ele treinou muito e seu corpo prosperou; mas, logo depois de iniciar seus estudos pré-universitários na Universidade de Keio, Tohei desenvolveu pleurisia, uma inflamação do revestimento do tórax que lhe provocava grandes dores no peito quando respirava. Por isso, Tohei foi forçado a ficar um ano fora dos treinos.

Tohei estava angustiado com a idéia de perder sua força corporal recém-descoberta, bem como os meios de formação que a ela levaram. Assim, ele decidiu substituir os seus estudos de JUDO por exercícios de meditação zen e misogi. Tal como aconteceu com o JUDO, Tohei entrou na formação da mente com muito fervor e logo começou a superar os seus graves problemas de saúde.

Depois de se recuperou da pleurisia, dos quais os médicos não encontraram qualquer vestígio, Tohei se convenceu de que fora o seu esforço na formação da sua mente em cultivar o seu Ki que o ajudara a se curar e se recuperar. Isso o estimulou posteriormente a desenvolver a Kiatsu, um sistema de tratamento de doenças físicas que consiste em pressionar o corpo das pessoas doentes com os dedos, além de estender o Ki para elas.

Depois da sua luta contra a pleurisia, Tohei voltou para os seus estudos de JUDO. Porém, ele não estava mais satisfeito com essa arte marcial. Tohei queria mais do que apenas um treinamento físico e não achava mais que o JUDO fosse a arte certa para ele praticar, embora continuasse praticando até quando iniciou seus estudos de AIKIDO.

Em 1940, aos 19 anos de idade, seu instrutor de JUDO, Shohei Mori, recomendou que Tohei fosse se encontrar com o Fundador do AIKIDO, Morihei Ueshiba. Nesse momento, Tohei andava insatisfeito com o JUDO; por isso, partiu para ver o mestre da nova arte marcial que tinha ouvido falar.

De acordo com o próprio Tohei, ao se dirigir pela primeira vez a um instrutor de AIKIDO e após assistir a algumas técnicas no Dojo de Ueshiba, teve dúvidas sobre o AIKIDO e seu valor para ele. Essa impressão, no entanto, mudou quando Tohei entrou no Dojo. Ele ainda não se encontrava totalmente convencido até que Ueshiba o pediu para tentar agarrá-lo. Todas as suas tentativas foram infrutíferas e, após essa demonstração pessoal de Ueshiba, Tohei pediu permissão para se inscrever no Dojo.

Tohei continuava a treinar sua mente, bem como o seu corpo, por meio da meditação, do misogi e do AIKIDO. Tohei treinou com Ueshiba durante seis meses antes de ser enviado como representante de Ô-Sensei para ensinar AIKIDO na escola Okawa Shumei e na Academia de Polícia Militar.

Anos de Guerra

Como tantos outros jovens japoneses, Tohei fora convocado para o exército imperial em outubro de 1942. Ele participou de ações na China, onde ficou preso até o fim da guerra, quando foi repatriado, em 1946.

Pós-guerra

Em 1953, Tohei foi enviado ao Havaí para introduzir o AIKIDO lá. A partir de então, o Havaí se tornava um centro para a difusão do AIKIDO nos Estados Unidos e, posteriormente, do estilo particular de Tohei

Em 1969, Tohei foi convencido por Ueshiba a aceitar o posto de 10º dan. Tohei aceitou, depois de ter recusado anteriormente à mesma oferta. O topo do ranking no AIKIDO alcançava até o 8º dan, mas, devido a razões práticas e políticas, alguns alunos de Ô-Sensei foram reconhecidos como 10º dan.

Criação do Ki no Kenkyukai

Os acontecimentos que levaram a separação entre a principal organização de AIKIDO (Akikai) e Koichi Tohei foram intensificados com a morte de Morihei Ueshiba, em 1969. Seu filho Kisshomaru Ueshiba herdaria o título de Doshu. No momento da morte de Ueshiba, Koichi Tohei era o instrutor chefe do Hombu Dojo, sede da Aikikai, cargo que manteria até a sua separação oficial do Aikikai em 1974.

Uma das principais causas do conflito surgiu da ênfase que Koichi Tohei dava ao seu princípio do uso do Ki no AIKIDO. Tohei queria que o AIKIDO se concentrasse nesse princípio, utilizando os exercícios práticos tanto para cultivar e testar, na prática diária, o Ki no AIKIDO.

Tohei já havia começado a ensinar suas novas idéias durante suas aulas no Hombu Dojo, mas não era apoiado pela maioria dos instrutores. Havia alguns que concordavam com a abordagem de Tohei, mas ela não foi acolhida por Kisshomaru e a maioria dos instrutores seniores, que tentaram, veementemente, encorajá-lo a parar de ensinar os seus princípios e técnicas no Hombu Dojo. Tohei respondeu que tinha o direito de ensinar, nem que para isso ele tivesse que sair do Hombu Dojo, e foi o que acabou fazendo.

Entretanto, a tensão ainda permaneceu entre o quadro dos instrutores superiores do Hombu Dojo, que não aprovavam o foco de Tohei sobre o Ki. Essas tensões, além da insatisfação geral de Tohei com a situação, culminaram, em 1971, com a criação do Ki no Kenkyukai, uma linha de AIKIDO cujo objetivo era promover o desenvolvimento e cultivo do Ki.

Os anos de conflito finalmente cimentaram a decisão de Tohei em romper com o Aikikai e ensinar o seu próprio estilo de AIKIDO. Assim, no dia 1º de maio de 1974, Koichi Tohei oficialmente deixou a organização Aikikai para se concentrar em seu recém-criado Ki-AIKIDO e a Ki-Society.

No dia 15 de maio, Tohei enviou uma carta em inglês e japonês para a maioria dos Dojos no Japão e no exterior explicando suas razões em se separar e seus planos envolvendo o Ki-AIKIDO e a Ki-Society. Essa separação foi um choque para todos os aikidocas de muitos Dojos do mundo. Tohei era bem visto por muitos instrutores e estudantes.

Na verdade, Tohei era visto como o maior sensei do AIKIDO após a morte de Ueshiba. Tohei levou vários Dojos a romperem com o Aikikai e a se juntarem a ele e seu novo estilo. O novo objetivo de Tohei era o de coordenar todos os Dojos que se juntaram a ele e incorporá-los à organização Shin Shin Toitsu AIKIDO: AIKIDO com a Mente e Corpo coordenados.

O Shin Shin Toitsu AIKIDO continua ativo hoje, mesmo após Tohei ter se aposentado dos negócios do Ki-AIKIDO e se concentrado exclusivamente no Ki-Society e no desenvolvimento do Ki.

Na manhã de 19 de maio de 2011, Koichi Tohei falece no Japão, aos 91 anos de idade, devido a complicações nos pulmões.

Alunos notáveis de Koichi Tohei

Tanto antes como durante a sua posição como instrutor chefe do Hombu Dojo, Tohei havia instruído muitos aikidocas notáveis. Vários deles têm realizado grandes trabalhos sobre o AIKIDO em geral.

Entre eles estão:

Koretoshi Maruyama, ex-instrutor chefe e presidente do Ki-Society, que, desde então, fundou o AIKIDO independente Yuishinkai, um estilo internacional de AIKIDO.

Shizuo Imaizumi, 7º dan Shin Shin Toitsu AIKIDO, que fundou o estilo independente Shin Budo Kai AIKIDO.

Calvin Tabata, 8º dan Shin Shin Toitsu AIKIDO e fundador do Ki NW Federation. Ele possui um Okuden rank Ki, é professor pleno no Ki-Society e é instrutor chefe da Escola Kiatsu. Começou seu treinamento no Havaí e é um dos alunos diretos de Koichi Tohei.

Koichi Kashiwaya, 8º dan Shin Shin Toitsu AIKIDO, instrutor líder de Ki-AIKIDO nos Estados Unidos.

Ken Willians, fundador da Federação de Ki-AIKIDO na Grã-Bretanha.

Kenjiro Yoshigasaki, 8º dan Shin Shin Toitsu AIKIDO, um dos pioneiros na divulgação do Ki-AIKIDO na Europa. Fundou a Ki Independence no Kenkyukai Association Internacionale.

Fumio Toyoda, 6º dan, fundador da Associação de AIKIDO da América e da Associação Internacional de AIKIDO.

Shuji Maruyama, fundador do Kokikai AIKIDO.

Steven Seagal, 7º dan, ator de filmes de ação, produtor, escritor, diretor e músico de blues.

David E. Shaner, PhD, 7º dan, instrutor chefe da Ki Oriental Federation e presidente do departamento de filosofia da Universidade de Furmam, onde se especializou em filosofia japonesa.

Kenji Ota, dançarino de salão, pai do 5º dan Steve Ota e participante de uma séria de vídeos instrutivos de Ki-AIKIDO produzidos pela Panther Productions.

Entrevista com Hitohiro Saito Sensei – Diário do AIKIDO 113 – 1998.

(Tradução: Makoto Flores Yamamoto – DAISHIZEN DOJO).

“Não devemos romper com a tradição do Fundador só porque estrangeiros vêm para cá.”

Hitohiro Saito (40) nasceu em Iwama, onde iniciou, aos sete anos, seus estudos com Morihei Ueshiba, e continuou sua aprendizagem com seu pai, Morihiro Saito Shihan. Dedicado a preservar a tradição espiritual e técnica do Aikidô de O-Sensei, Hitohiro estabeleceu uma reputação de técnica e métodos pedagógicos excelentes no Japão, nos EUA, na Europa e na Austrália. Foi possível sentir seu profundo amor e respeito pelos dois mestres (seu pai e o Fundador) durante esta entrevista exclusiva.

(Diário do AIKIDO) Hitohiro Sensei, quais são suas recordações mais antigas do dojo?

(Hitohiro Saito) Eu compartilhava refeições com O-Sensei, comia o que sobrava no prato dele. Eu também me lembro de chorar pelas manhãs em minha infância porque minha mãe não estava ao meu lado quando eu acordava. Ela estava sempre fora ajudando O-Sensei no dojo.

(D.A.) Dizem que O-Sensei era muito severo…

(H.S.) O-Sensei geralmente demonstrava suas técnicas apenas em outros lugares, mas é verdade que ele deu aulas em Iwama e era muito rígido. Ele gritava, “Que tipo de kiai é esse! Vá lá fora e veja se você consegue derrubar um pardal com seu kiai.” Ou, se alguém aplicasse um yonkyo malfeito, “Saia e tente em uma árvore! Persista até que você descasque ela!”

Até mesmo quando criança, eu percebia a aura ao redor dele, a de um grande homem. Todos nós baixávamos as cabeças do momento que Saito Sensei, meu pai, ia buscar O-Sensei; permanecíamos prostrados até O-Sensei chegar com Saito Sensei logo atrás. Nós então levantávamos a cabeça para finalmente se curvar a O-Sensei em frente ao santuário do dojo. Depois, começávamos o treinamento com tai no henko.

Se eu estivesse sentado próximo ao Saito Sensei enquanto O-Sensei explicava uma técnica de shomenuchi, eu era chamado para executar um ataque de shomenuchi contra O-Sensei. Um dia, mandaram minha irmã mais velha atacar O-Sensei, mas ela começou a chorar e deixou o dojo, pois não era fácil para uma criança interromper O-Sensei desse modo. Falaram para eu ir, e eu o golpeei com um grito de kiai; foi quando O-Sensei disse, “Então você veio, não foi?” Ele me jogou, mas usou sua mão para evitar que eu batesse minha cabeça no tatame e disse, “Cuidado agora.” O-Sensei era uma pessoa muito amável.

Eu me lembro de ir para o jardim vê-lo escovar os dentes; de repente, ele os arrancou, pois eram falsos, e disse, “Isso foi engraçado, não foi?” (risos)

(D.A.) Quantos anos você tinha na época?

(H.S.) Estava no meu segundo ano primário. O-Sensei ainda era vigoroso naquela época. Nos seus últimos anos, ele fazia longos aquecimentos; porém, quando eu iniciei meus treinos de Aikidô, ele costumava ensinar mais técnicas.

(D.A.) Quando você decidiu se dedicar completamente a Aikidô?

(H.S.) Eu não tive muita escolha, pois sou o único filho, embora eu fosse preguiçoso quando comecei a treinar (risos). Eu planejava abrir um restaurante para poder me sustentar enquanto fazia Aikidô. Depois de me formar, fui para Sendai por um ano para aprender a cozinhar; depois, fui para Osaka para mais dois anos de estudo. Sempre que tinha folga, eu visitava o dojo de Seiseki Abe e aprendia caligrafia com ele. Eu também visitava o aiki dojo de Bansen Tanaka.

Abe Sensei pratica misogi jogando água fria nele todas as manhãs para purificar a alma. Ele expressa sua mente ascética pela caligrafia. Ele conheceu O-Sensei no dojo de Bansen Tanaka em Takahama. O-Sensei reconheceu uma alma gêmea no caminho do misogi e começou a aprender caligrafia com ele.

(D.A.) Nós visitamos Abe Sensei alguns anos atrás e vimos alguns rolos de papel maravilhosos feitos pelo O-Sensei. Dá para sentir um ar espiritual assim que você entra no dojo.

(H.S.) Esses rolos de papel são iluminados, não são? Para aprender mais sobre O-Sensei, devemos ler seus doka (poemas) e estudar sua caligrafia. Fotografias e vídeos nos dão um certo sentimento de conexão direta com O-Sensei, mas seus poemas e sua caligrafia se comunicam mais sutilmente conosco. Eles são realmente maravilhosos e profundos.

(D.A.) Abe Sensei conhece muito bem os poemas de O-Sensei, não?

(H.S.) É verdade, espero ele tenha sucesso nos planos de publicar uma coleção de caligrafias de O-Sensei e construir um museu dedicado ao O-Sensei. Quando eu era uma criança, Abe Sensei frequentemente visitava Iwama com sua filha. Ele é um aprendiz com profundo entendimento do Kojiki (Registro de Assuntos Antigos), o livro mais antigo da História japonesa. O-Sensei o citava para explicar o Aikidô. Abe me contou muita coisa sobre o Kojiki, mas como é algo tão difícil, temo que tenha entrado por um ouvido e saído pelo outro (risos).

(D.A.) Você praticou Aikidô durante seu aprendizado em Sendai e Osaka?

(H.S.) Em Sendai, eu treinei com Hanzawa Sensei e, em Osaka, pratiquei no dojo de Abe Sensei

(D.A.) Você abriu um restaurante em Iwama, como planejado?

(H.S.) Sim, em 1978, mas eu era jovem e tolo, costumava beber muito à noite com os clientes e não treinava muito seriamente. Eu dirigi o restaurante durante sete anos, mas comecei a temer que isso arruinaria minha saúde. Assim, falei com meu pai e ele concordou que eu deveria sair daquele negócio. Ele viajava para outros países frequentemente e precisava de alguém para se encarregar do dojo enquanto estava fora. Isso foi há 11 anos e, desde então, eu dou aulas de Aikidô em tempo integral.

Onze anos atrás, eu fui à Dinamarca com Saito Sensei para participar de um seminário. Ano passado foi o 10º aniversário da viagem; por isso, voltei lá com Saito Sensei e várias pessoas de Iwama. Foi um grande seminário, com aproximadamente 300 participantes.

(D.A.) Que conselho você daria para os praticantes de Aikidô sobre os fundamentos do treinamento?

(H.S.) Saito Sensei diz que todo taijutsu, técnicas de jo e ken são baseados em hanmi. Primeiro, você deve dominar o hanmi. Depois, você tem que aprender a fazer um kiai apropriado. Eu acho que o treinamento sem kiai é lastimável. O Fundador tinha um kiai maravilhoso. Se você quer aprender o verdadeiro budo, não pode cometer o erro de tentar imitar O-Sensei. Infelizmente, as pessoas não sabem muito sobre O-Sensei; por isso, dou o meu melhor para falar mais sobre ele.

Os fundamentos do treinamento de Aikidô estão sendo deturpados. Isso é evitado se você praticar ki no nagare (técnicas do fluxo do ki) desde o começo. O treino básico consiste em deixar seu parceiro te segurar firmemente. Assim, ele está fazendo um favor a você. Seu parceiro o segura e só então você começa uma técnica. Esse é o primeiro passo do caminho. Uma das instruções do Fundador era iniciar com tai no henko. Você não deve negligenciar a prática de tai no henko. Isso é o que ensinamos em Iwama.

É muito importante treinar forte o tai no henko e o morotedori kokyuho. Caso contrário, não dá nem para começar a explicar o ikkyo. Quando você gira em seu pé dianteiro e abre pela parte traseira, como em urawaza, você deve conseguir executar o movimento adequado de tai no henko, que é trazer os dedos do seu pé ao encontro dos dedos do pé do seu parceiro. Seu corpo gira ao redor do dedão do seu pé dianteiro. Gire corretamente, não de qualquer jeito. Você precisa harmonizar com seu oponente, não fazer de qualquer forma. Você tem que começar de maneira sólida.

(D.A.) A precisão necessária para se unir é um aspecto valioso.

(H.S.) Qualquer um pode se unir de maneira geral, mas a pessoa deve começar com formas mais específicas, que no fim se expandirão à harmonia universal sobre a qual o Fundador falou. Primeiro, você aprende como unir com seu parceiro “dedão do pé com dedão do pé”; daí, como girar em seu pé dianteiro. Quando você souber girar corretamente, você poderá executar uma técnica de urawaza. Não é possível verbalizar essas coisas; elas só podem ser dominadas treinando. O Fundador disse: “A prática vem primeiro.” Não é seu parceiro que se une com você, mas você que deve se unir a ele em tudo: “Mova-se, abra, então guie-o.” Isso é o que O-Sensei ensinou a Saito Sensei. Um erro de um centímetro pode impossibilitar o sucesso de uma técnica. Você não pode mudar as técnicas ao seu bel prazer. Há um modo definido para fazer cada técnica. Qualquer um, não só o forte fisicamente, deve poder aplicar as técnicas. Infelizmente, pessoas negligenciam o tai no henko. Eu posso dizer, apenas vendo as pessoas praticando o tai no henko e o morotedori kokyuho, que tipo de prática que elas fazem no dojo. Eu não preciso ver mais que isso. Eu acho que todos os fundamentos do taijutsu do Fundador estão contidos nessas duas técnicas e no ikkyo. É difícil achar alguém que possa executar uma técnica de ikkyo perfeita. Eu sei que isso pode soar insolente, mas eu acredito que você não pode entender o Aikidô sem começar corretamente essas técnicas. Se você não dominou o tai no henko, você sempre acabará colidindo com seu oponente nos outros movimentos. O treino básico é para o habilitar a resolver os problemas causados pelo movimento errado do corpo. É impossível explicar em palavras, pois tem um significado mais profundo; mas eu sinto que o único modo de aprender é permitir que seu parceiro o segure firmemente.

(D.A.) Em algum dojos, os sensei colocam seus alunos para praticar as técnicas após demostrá-las apenas duas ou três vezes, sem explicação adicional; mas em Iwama, você sempre tem explicações muito detalhadas.

(H.S.) A razão pela qual Saito Sensei explica as técnicas em detalhes é que ele quer que todo mundo domine cada técnica o mais depressa possível. O método pedagógico dele é resultado do aprendizado de muitos erros que ele cometeu durante anos. Em seus últimos anos, O-Sensei demonstrava uma técnica de forma extremamente rápida, para então julgar a habilidade de seus alunos baseada no quão bem eles a entenderam. Como Saito Sensei quer que todo mundo se aprimore mais rápido do que ele, ele interrompe seus alunos imediatamente quando cometem um erro para ensinar os detalhes. Ele não poderia fazer assim em um treinamento fácil. Se seu parceiro se render a você o tempo todo, não dará para saber se você executa as técnicas corretamente. Segurar seu parceiro fortemente o ajuda a saber se você faz as técnicas corretamente ou não. Isso não significa que ele deve te segurar com malícia, embora a técnica pode ser adaptada de acordo com a situação. Seu parceiro deve segurá-lo firme, mas corretamente, para então você aprender a se unir com o poder dele. Esse é o treino básico. Se ele te segura de forma cruzada por cima ou por baixo, você deve adaptar sua reação. Quando seu oponente o segurar, conduza-o habilmente. Vocês emprestam seus corpos um para o outro para treinarem seriamente.

(D.A.) As pessoas dizem frequentemente que, no Aikidô, não dá para medir sua habilidade porque o oponente colabora com você.

(H.S.) Isso não é verdade. Você sempre pode ver se sua técnica é boa ou ruim em todo momento da prática. Se você tiver que fazer qualquer esforço desnecessário, ou sentir que seu oponente é pesado, ou colide com ele, é porque você não está se unindo completamente a ele. Você deve identificar claramente o que está errado em seu movimento, ou saber se sua distância não é boa o bastante. Não há nenhuma necessidade em competir para saber se as técnicas funcionam ou não.

(D.A.) Você quer dizer seu parceiro deve atacá-lo seriamente no treinamento?

(H.S.) Sim, se eu digo, “Me golpeie”, ele deve golpear com todo seu poder; se eu disser, “Me ataque”, ele deve atacar duro; ou ele deve me agarrar fortemente. Ele deve atacar com toda sua força e energia. Claro que, se a força do uke difere consideravelmente da do parceiro, ele deve atacar com metade da força para que o nage poder aprender. O Fundador dizia que fazer essa prática com uma criança era um bom modo para aprender. Unir totalmente sua energia com a de uma criança é um grande desafio. Obviamente, algumas pessoas são mais fortes que outras; mas, se eles prejudicam o parceiro, cometem um ato de violência, o que não é mais Aikidô. Algumas pessoas pensam que tal prática violenta é valiosa, mas eu acho isso infame. O Fundador disse que nós deveríamos desfrutar do nosso treinamento, mas depende de quão agradável ele é para você. Quando você pode dizer sinceramente a seu parceiro depois da classe, “Muito obrigado. Por favor, treine novamente comigo”, esse é o melhor tipo de prática. Se um conflito surgir entre você e seu parceiro e o sentimento desagradável persistir após o treino, o treinamento não poderá conduzi-lo à paz mundial, como quis o Fundador. Eu quero que as pessoas gostem de todas minhas aulas. Até mesmo se alguém se machucar mas ainda quiser treinar, ele deve ser aceito. Eu aconselho os alunos que falem com o parceiro se tiverem um cotovelo ou pulso dolorido. Eles ainda podem treinar seriamente com o braço bom. Eu falo às pessoas cujos joelhos são ruins para fazerem técnicas em pé no lugar das técnicas de joelho. Nós não devemos praticar com receio. O melhor treino é quando você se preocupa um com o outro. O Fundador defendia uma abordagem ampla e, em Iwama, você ainda pode ser tocado por esse sentimento. Ele também disse que você pode aprender qualquer coisa que você vê se você quiser. Isso é bem verdade.

(D.A.) Mesmo que alguém não possa treinar diariamente, é mais importante que sua postura seja séria, não é?

(H.S.) Sim. O Fundador disse que até mesmo se você praticar centenas de vezes o suburi, você desperdiçará seu tempo se você não puser seu ki nele. Dez vezes são bastante se você dedicar toda sua energia. A questão não é quantas repetições ou quanto tempo você gasta treinando. Você não fica apto automaticamente após praticar por muitos anos e você não necessariamente é um mau aluno se praticar durante apenas dois anos. A questão é quão seriamente você se dedica.

Seu treinamento deve ser profundo, e é insensato treinar casualmente. Você deve aproveitar ao máximo seu treinamento. Não importa quantas técnicas você pratica; lembre-se sempre de que elas devem ser eficazes numa situação real. Seja mortalmente sério em seu treinamento e não desperdice um único minuto. Às vezes, eu vejo demonstrações de pessoas com técnicas que faltam definição, embora elas tentem duramente. Isso é lamentável; seria melhor se entregar por inteiro nos treinos, pois elas investem muito tempo nisso. Deve-se relaxar e colocar toda sua energia.

(D.A.) Tohei Sensei diz que, embora O-Sensei falasse para seus alunos usarem todo seu poder, ele mesmo parecia estar muito relaxado e não usava força.

(H.S.) Quando O-Sensei dizia, “Use toda sua força “, ele queria dizer, “Seja mortalmente sério” ou “Coloque toda sua energia.” Eu não acho que ele queria dizer para as pessoas exagerarem, mas usar todo o ki desde o fundo da barriga. Originalmente, ele gostava de dizer para as pessoas relaxarem. Quando Abe Sensei treinava Aikidô com O-Sensei, também lhe foi falado, “O Aikidô começa quando você deixa toda sua força ir embora.” Você deve relaxar e, mesmo assim, colocar toda sua energia.

(D.A.) Esse é um conceito difícil de se expressar em inglês.

(H.S.) Eu vejo a mesma dificuldade em japonês. O-Sensei disse em um de seus poemas, “A verdadeira arte marcial não pode ser expressa por palavras ou letras. Se você ousa tentar, Deus não lhe permitirá continuar.” Eu acho que isso significa que não dá para explicar artes marciais com palavras. Você deve aprender treinando mas, ao mesmo tempo, não deve assumir um ar de sabedoria. Ele deixou dois ou três poemas semelhantes. Tohei Sensei é um homem realmente respeitável, muito diligente nos estudos. Quando eu era criança, Saito Sensei dizia para eu me tornar seu uchideshi.

Em Iwama, preservamos não só a tradição em nosso treinamento mas também na vida diária.

(D.A.) Milhares das pessoas vêm de fora do Japão a Iwama, e deve haver muitos outros que sonham fazer o mesmo. Por favor, fale-nos sobre a vida de uchideshi e suas responsabilidades.

(H.S.) Há dois tipos de pessoas que vêm treinar em Iwama: os uchideshi (alunos residentes) e os sotodeshi (alunos de fora). Para um uchideshi, o dojo é sua casa. Em casa, você  a limpa, lava suas roupas diariamente e mantém seu jardim limpo; o serviço doméstico é compartilhado por todo o mundo. Como as áreas do dojo são muito grandes, há bastantes ervas daninhas e folhas mortas; sem cuidar disso por uma ou duas horas por dia, não dá para manter o dojo. Algumas pessoas têm um problema com esse costume japonês e voltam para casa dizendo, “Não foi o que pensei que seria.” Mas os uchideshi devem estar dispostos a fazer o trabalho voluntário e receber instruções com gratidão.

Todo dia, os uchideshi têm duas práticas, de manhã e à noite. Eles também podem praticar livremente durante o dia. Os sotodeshi só praticam à noite, embora nos ajudem com a limpeza algumas vezes aos domingos. Aprender os costumes japoneses é muito importante. Não devemos romper com a tradição do Fundador só porque as pessoas de fora vêm para cá.

Vir a Iwama significa conhecer O-Sensei. Este dojo não mudou nada desde os dias em que O-Sensei ainda vivia. Provavelmente a única coisa que nós mudamos é o tatami. Nem sequer os banheiros foram mudados; eles estão igual a 50 anos atrás e a banheira é a mesma que O-Sensei usava. Vir para cá é voltar no tempo, para aquele dias quando O-Sensei ainda estava vivo. Embora O-Sensei não esteja mais entre nós, aqui você pode se tornar um com ele em espírito. Se chover pela manhã, nós treinamos dentro do dojo; mas, com tempo bom, praticamos ken ou jo lá fora. Esse treinamento é bastante tradicional. Este tipo de dojo não é mais encontrado no Japão; imagine então em países estrangeiros. Este é um dojo onde a tradição não só é mantida em nosso treinamento mas também na vida diária. Então, eu gostaria que os uchideshi aprendessem sobre a tradição japonesa e, ao mesmo tempo, treinem duro para se tornarem instrutores. Você pode aprender técnicas e disciplinar sua mente ao mesmo tempo. Iwama oferece essa grande oportunidade.

(D.A.) Algumas pessoas acham que não há nenhuma necessidade em praticar ken ou jo no Aikidô.

(H.S.) Se fosse possível retirar o ken e o jo deste mundo, você não precisaria estudá-los. Porém, artistas marciais sérios devem aprender o arco, a espada, o jo e assim por diante, pois eles existem. Aprender sobre eles significa primeiro dominar seu uso. O Fundador dizia que ken, jo e taijutsu são um só. Então, você deve praticá-los. Aparentemente, quando O-Sensei via pessoas brandindo armas no Hombu Dojo, ele ficava bravo; lá, ele só demonstrava as técnicas de armas, sem ensinar de fato. Pode ter sido porque vários os tipos de pessoas iam ao Hombu para assistir a prática, e O-Sensei não queria que as visitas vissem o ken e o jo usados de modo errado.

Teria sido diferente se alguém houvesse estudado armas diligentemente desde o início, se aperfeiçoando sob a tutela do Fundador. Se O-Sensei visse alguém executar suburi exatamente que como ele queria, imagino que ele sorriria. Mas, se as pessoas brincassem com as armas ou experimentando técnicas de iai, O-Sensei provavelmente ficava bravo e os interromperia.

Eu conheci um dos que deixaram O-Sensei bravo mas, segundo ele, O-Sensei não disse “Não use armas”, e sim “Quem lhe deu permissão para praticar armas?” Saito Sensei trabalhou em turnos de 24 horas numa estrada de ferro, e assim pôde praticar técnicas de armas a cada dois dias com O-Sensei o dia inteiro. Quando Saito Sensei ensinava técnicas de armas em suas aulas de domingo no Hombu Dojo, O-Sensei assistia com um largo sorriso.

Houve uma vez, em minha infância, enquanto Saito Sensei  ensinava jo, eu apanhei uma vara e imitei o kata 31 para jo. Eu ouvi depois que O-Sensei assistiu a mim do quarto dele com um sorriso. Acho que o que importa é se as pessoas faziam as técnicas de armas do modo que O-Sensei lhes ensinou. Felizmente, temos Saito Sensei como um modelo maravilhoso. Devemos seguir seu exemplo para, então, dar um salto individual maior. Esse é o aiki do takemusu, a própria criação do indivíduo. Se você nunca usou armas, não poderá lidar com uma situação na qual você é atacado por uma arma. Porém, eu não insistiria a quem procura dominar o Aikidô para fazer treinamento de armas. O Fundador praticou armas e as armas existem. É por isso que nós praticamos. Não há nada mais que isso.

(D.A.) Todo o mundo concorda que o aspecto espiritual é muito importante no Aikidô de Ueshiba Sensei; qual é o seu treinamento espiritual?

(H.S.) Eu não faço muita coisa. A casa de meus avós fica atrás do Monte Atago, em Iwama. Aproximadamente seis anos atrás, eu pratiquei misogi diariamente debaixo de uma cachoeira que há lá durante pouco mais de um ano. Eu não faltei um dia, houvesse chuva ou neve. Um dia, li um artigo sobre um interessante senhor chamado Sasame, que vivia em Monte Otake, em Okutama, Tóquio. O artigo falava que ele havia conhecido Onisaburo Deguchi; por isso, senti desejo em visitá-lo. Depois de ficar em uma prisão na Sibéria durante a guerra, Sasame foi repatriado no ano em que nasci (1957) e, a seguir, visitou Iwama. Ele conheceu O-Sensei em Tóquio, que o avisou para ir a Iwama rezar no santuário e se recuperar dos efeitos da prisão. Mas ele voltou para Tóquio porque ele tinha medo que O-Sensei e ele entrassem em conflito, pois ambos eram bastante teimosos. Eu aprendi muito sobre a filosofia de Sasame Sensei. Infelizmente, ele morreu este ano. Ele também teve uma relação íntima com a religião Omoto. Ele não era exatamente um seguidor, mas a disciplina espiritual que ele ensinava está relacionada à religião Omoto de antigamente. Sasame Sensei disse, “Ueshiba Sensei deve tê-lo enviado a mim” e eu tive a mesma impressão. O Fundador disse que era importante estudar a unidade entre o mundo de aparências e o mundo espiritual. Como resultado, me tornei um pouco mais aberto ao mundo invisível. Acho que meu caráter mudou um pouco, pelo menos. Eu era bem rude, mas cresci para poder abaixar minha cabeça a outros. Eu tenho agora 40 anos, sabe? (risos)

(D.A.) Há um livro de O-Sensei chamado Budo, escrito em 1938. Você pode falar sobre ele?

(H.S.) Aquele livro foi escrito quando O-Sensei ainda era vigoroso. O Aikidô do Fundador não tinha a mesma forma no início do que o visto em seus últimos anos. Em Iwama, o Aikidô permaneceu quase exatamente como era quando o Fundador o iniciou. É um livro muito importante para aprender sobre o Fundador e a história das técnicas. É um tesouro; gostaria que houvesse trabalhos como esse, que mostra o Aikidô de O-Sensei como ele praticava aos 50, 60 anos. Saito Sensei logo terá 70 anos; assim, esses que iniciam no Aikidô agora não sabem como ele era quando jovem, com exceção do pouco que conseguem obter em vídeos e livros. Porém, no dojo, há pessoas que têm praticado desde quando Saito Sensei era jovem. Com elas, dá para saber como Saito Sensei era. A relação entre as pessoas no dojo deve ser como uma pirâmide. O-Sensei está no topo, seguido por Saito Sensei, e então os alunos mais antigos. Deve-se aprender com os mais experientes. Outros materiais de aprendizado também são úteis, e o livro é um exemplo maravilhoso. Técnicas não permanecem no dojo, mas se mantêm vivas dentro do indivíduo.

(D.A.) Uns oito anos atrás, quando surgiu uma possível venda do dojo de Iwama, Saito Sensei construiu um dojo novo. Se o dojo e os antigos aposentos de O-Sensei, além de outras coisas desaparecerem, você acha que ainda poderá manter aquela imagem única de Iwama?

(H.S.) Nós podemos apenas fazer o melhor possível. Até mesmo se perdermos o dojo, o santuário permanecerá, Porém, nós também não deveríamos ficar apegados à forma das coisas. O Aikidô de O-Sensei permanecerá intacto até mesmo se este dojo desaparecer. O treino de Aikidô não requer um lugar especial. Contanto que o espírito se mantenha, tudo ficará bem. Eu ficaria contente mesmo se apenas uma pessoa aprendesse essa lição, embora, naturalmente, todos estaríamos bastante tristes sem o dojo. Se isso acontecer, teremos que fazer um memorial.

(D.A.) Há algum modo de assegurar a preservação deste dojo?

(H.S.) Houve muitas sugestões, inclusive pedir uma contribuição de todos para estabelecer um fundo de preservação, ou reservar uma parte do dojo para posteridade, mesmo se for só um canto.

(D.A.) Ouvi dizer que algumas pessoas conheceram Tamura Sensei na França e perguntaram a ele se poderiam desmontar o dojo para ser enviado à França às custas deles, para impedir que ele fosse destruído.

(H.S.) Eu posso imaginar bem porque as pessoas querem manter o dojo. Patricia Hendricks, uma aluna da Califórnia, diz frequentemente quando ela vem aqui que o Iwama Dojo tem uma atmosfera tão especial que nunca deixa de revigorá-la. Entendemos que Iwama é o centro original do mundo do Aikidô e nós não hesitamos em dizer isso, embora eu suponha que eles diriam a mesma coisa em Tóquio, Tanabe e Ayabe. Acreditamos que o Aikidô começou aqui. É uma atitude mental importante, que pode nos ajudar a terminar o que o Fundador deixou incompleto.

(D.A.) Como você pensa que o Aikidô se desenvolverá de agora em diante?

(H.S.) Depende da atitude individual de cada um. Se você está preparado para se disciplinar com rigor, da forma que requer o modo marcial, acho que o Aikidô se expandirá infinitamente. Porém, ele não progredirá nada se você treinar com um parceiro que apenas colabora com você, sem atacá-lo seriamente. Pode ser outro problema se você praticar Aikidô somente pela saúde ou amizade. Caso contrário, ninguém irá além do Fundador. No mundo do sumô, as pessoas devolvem a bondade dos mais antigos lançando-os. Nós podemos devolver a bondade do Fundador indo além dele. Posso soar arrogante, mas acho que deveríamos treinar com essa atitude. Todos nós deveríamos fazer um estudo profundo sobre Saito Sensei. Essa é a meta para os que treinam em Iwama. Você deve sempre observar atentamente Saito Sensei e os mais praticantes mais antigos para se aprimorar profundamente. Tendo os ensinos do Fundador e de Saito Sensei como base, eu gosto de treinar duro e compartilhar com todo o mundo, sem derramar a água que O-Sensei tirou do poço. Essa é nossa responsabilidade. Saito Sensei carrega um fardo maior e eu devo estar certo de que recebo a mesma água dele. Todos os que estão agora no dojo também devem receber dessa água e dá-la aos que nos seguem. Embora devermos beber um pouco primeiro (risos). Beba primeiro e passe; isso é preservar essa maravilhosa tradição. Em primeiro lugar, aprenda sobre o Fundador, então adicione suas ideias originais e dê um salto. Antes de falecer, o Fundador disse, “Continue fazendo o que eu deixo inacabado.” Nós precisamos nos perguntar diariamente o que o Fundador nos deixou para fazer.

(D.A.) Você vai suceder Saito Sensei e manter a tradição; mas há alguma outra coisa que você gostaria de adicionar ou alcançar?

(H.S.) Acho que o Aikidô de Iwama está bem como é. Se eu quisesse adicionar qualquer coisa pessoalmente, gostaria de fazer um treinamento mais espiritual, mas eu não exigiria o mesmo de outros. Eu gostaria de fazer misogi como o Fundador fazia, embora o que eu faço possa ser não mais que uma imitação. Então, quero tomar a responsabilidade em preservar as formas tradicionais da mesma maneira que Saito Sensei tem feito. Porém, você não pode fazer nada sem uma técnica boa. Se você se torna um carpinteiro por herança, mas suas habilidades são ruins, ninguém lhe dará trabalho. O sucesso depende da habilidade individual. Eu farei todo esforço para não envergonhar o nome de meu pai, mas não é tão fácil assim.

(D.A.) Hitohiro Sensei, por favor, pode dar aos nossos leitores mais algumas palavras para concluir esta entrevista?

(H.S.) Quero que todos aprendam sobre o ensino espiritual e técnico de O-Sensei, especialmente no período em que ele era muito vigoroso, em vez de seus últimos anos. Vocês acharão algo certamente original, que difere do Daito-ryu. O Daito-ryu também é maravilhoso e nós deveríamos aprender com Sokaku Takeda Sensei também; mas primeiro quero que todo mundo saiba como O-Sensei era quando jovem.

(D.A.) Alguém me disse certa vez, “O-Sensei eliminou as técnicas do jiu-jitsu do antigo Daito-ryu e criou uma arte mais magnífica”, mas quando eu perguntei, “O que foi eliminado e o que é original do Aikidô, então?”, a pessoa não pôde responder. Eu não digo que todo mundo deveria praticar o Daito-ryu, mas algum estudo pode nos dar uma compreensão sobre que partes do Aikidô é original e que partes são adaptações do Daito-ryu. O-Sensei também foi influenciado pela religião Omoto e por pessoas como Masahisa Goi, do Byakko Shinkokai. Ao falar sobre os pensamentos de O-Sensei, a sua originalidade é um aspecto muito importante.

(H.S.) Esses que aspiram a dominar o Aikidô devem estudar sua origem.

(D.A.) A menos que haja alguém que seja bem melhor que O-Sensei.

(H.S.) Como disse Sasame Sensei, “As técnicas de O-Sensei são técnicas divinas; assim, uma pessoa normal não poderá imitá-las, não importa o quanto ele treine.” Como as técnicas dele são realmente divinas, temos que nos aprimorar o máximo possível para ir além.

(D.A.) Acho que é importante ter uma atitude que diz, “Quero chegar até o ponto em que O-Sensei alcançou” ou até mesmo “Quero ir além” e fazer nosso melhor, em vez de medir até onde já chegamos. O que importa é como você vive sua vida enquanto você ainda está bem de saúde e espírito.

(H.S.) É verdade. Eu quero dizer aos que sinceramente desejam aprender Aikidô, “Por favor, venha a Iwama, conheça Saito Sensei, deixe-o tocar seu coração e abra sua mente.” Você pode não mais encontrar esse tipo de dojo.

(D.A.) Hitohiro Sensei, eu lhe agradeço muito por hoje.

 

 

 Artigo – Em Busca da Espada Perdida (Willian Gleason sensei – 7º dan Aikikai – SHOBU AIKI)

(Fonte: http://www.aikiweb.com/weapons/gleason1.html – Adaptado e traduzido por: Gustavo N. Santos)

Ao falecer o Fundador, em 1969, o treinamento de espada na Hombu Dojo (Academia Central) no Japão deixou de ser parte do currículo. Naquele tempo, o treino com espada estava disponível os alunos mais graduados e era realizado a “portas fechadas”.
Pelo contrário, o treinamento de desarmar os oponentes continuou sendo parte dos processos de exame até hoje.
Já o estudo do uso e manuseio da espada, para todos os efeitos práticos, foi completamente suspenso.
Desde aquele tempo a controvérsia sobre praticar, ou não, se espada era realmente parte, importante do treino de Aikidô se intensificou.
Indubitavelmente, Morihei Ueshiba, fundador do Aikidô, considerava o treinamento como a espada como uma parte essencial de seu ensino, bem como a sua própria formação. Ele constantemente usou armas, especialmente a espada, para mostrar os princípios do Aikidô.
Por que a esgrima é tão valiosa para a compreensão da essência do Aikidô?
Se estudarmos esta questão por uma perspectiva histórica a resposta se tornará clara.
O-Sensei, segundo ele mesmo, foi o fundador do Aikidô, mas não foi o criador do principio do Aiki. Este princípio foi reconhecido nas antigas tradições da espada Japonesa bem como na filosofia japonesa do Xinto. O-sensei era um devotado estudante do Xintoísmo e passou vários anos estudando a espada japonesa. Entre os estilos de espada que o fundador estudou havia o antigo estilo Kashima que data do século XV. O fundamento desta escola é o conceito de Shinbu, “o caminho marcial divino” em que se vence sem lutar. Para realizar isto se tem que desenvolver-se, física e espiritualmente, ao nível dos Deuses. Vale ressaltar que a escola do Katori Shinto Ryu, também tem o conceito equivalente de vencer sem matar, chama-se “heiho”.
O ideograma SHIN neste caso significa “Divino” e o ideograma BU refere-se à força criativa da vida, o poder do Musubi, ou tornar-se uno com seu parceiro. Isto foi descrito como Hoyo Doka, uma aceitação dos sentimentos negativos dos outros e da reintegração de que esta atitude magnânima volta para aqueles que nos atacam. Na aceitação, e re-absorção, é a habilidade de receber a energia de seu parceiro e unificar-se de tal forma que este poder é reduzido à zero. No Aikidô está é uma boa explanação sobre o que chamamos do poder do Kokyu. Dominar os aspectos espirituais e psicológicos desta habilidade era chamado de Aiki. A palavra Aiki também era usada para denotar o mais elevado nível de maestria no estilo Yagyu de espada onde O-sensei também foi notável.
A realização, realmente incrível, do fundador foi aplicar estes princípios para o treinamento de mãos vazias para uma nova e única maneira.
Por que isto não foi praticado, naqueles tempos antigos, depois de sua morte?
Todos os estilos de espada técnicas de grappling ou formas de Jujutsu, para no caso do guerreiro perder sua arma no calor da batalha, ser capaz de tirar a espada de outro homem quando você estava desarmado. No estilo Yagyu, isto é considerada a maior façanha.
Foi a grande visão espiritual de O-Sensei ao perceber o treinamento desarmado não como grappling, mas como a luta de espada sem a espada. Por isto, Jigoro Kano Sensei, o fundador do Judô, declarou que o Aikidô era a arte que ele havia buscado por toda a sua vida. O-Sensei, através de suas práticas espirituais, percebeu que poderíamos usar nossas mãos, ou mesmo só as nossas mentes, para cortar o ataque ou a defesa de nossos parceiros como se fosse a espada.
Combinando sua visão espiritual com o treino efetivo de espada ele percebeu que era possível estender a influência do Ki, ou intenção, além dos nossos dedos da mesma forma que nosso movimento e alcance são estendidos quando seguramos a espada.
A extensão do Ki é a essência do Mutô ou “espada sem a espada” e não há melhor exemplificação disso do que na prática do Aikidô.
No estudo da espada aprendemos como controlar o Kensen, a linha em que o Kirisaki, a ponta da espada, traça em cada corte. Para isso devemos capazes de traçar esta linha apenas com nossos olhos da mente. Esta habilidade é um dos segredos da prática do Aikidô. Isto nos permite ver a forma invisível presente em cada técnica e enviar energia precisamente para o local correto no corpo de nosso parceiro. Esta habilidade leva vários anos para ser adquirida.
Sem o treino da espada, fica difícil ao estudante a descoberta disto.
Cortar com a espada japonesa é um movimento expansivo onde a ponta da espada deve estar com unida ao nosso centro.  Por exemplo, o corte diagonal, básico, chamado Kesa Giri, pode ser equiparado ao Ikkyo no treinamento desarmado do Aikidô.
Se uma pessoal realmente domina este corte, ela realiza o Shin Shin Toitsu ou unificação de corpo e mente. Na técnica da espada do Kesa Giri está o segredo do movimento espiral natural. A espada desce pelo seu próprio peso e o peso do corpo vem para guiar esta queda livre. O giro do quadril e a sutil conexão entre nosso centro e a ponta da espada criam uma força sem esforço e velocidade. Exatamente como no Aikidô, esta forma básica de corte com a espada depende de uma continua expansão dos nossos sentimentos; de fato está é a vida do próprio movimento.
Além do mais, o trabalho dos pés e todos os movimentos da esgrima são semelhantes aos do Aikidô. Todo movimento no Aikidô, corretamente compreendido, é um movimento de corte. Afinal de contas, a espada foi criada para se ajustar ao movimento natural do corpo e não o contrário.
Estas são as principais diferenças entre o Aikidô e qualquer uma das várias escolas de Jujutsu. O Nikkyo, Sankyo, e Yonkyo do Aikidô, por exemplo, são realizados como movimentos de corte amplo, e não como chaves de pulso de contração.
Aikidô é uma arte extremamente sutil e difícil. Requer uma vida de dedicação para alcançar sua essência. Por esta dificuldade o Aikidô é quase sempre mal interpretado e praticado, quer como uma forma de Jujutsu ou meramente como exercícios aeróbicos.
Praticar em qualquer uma destas formas falta conteúdo tanto marcial quanto espiritual. As técnicas do Aikidô são ineficazes até que a pessoa tenha compreendido a essência do movimento espiral expansivo e a utilização apropriada do Ki, ou poder interno. Portanto, eles não podem ser efetivamente usados da mesma forma que técnicas de Jujutsu, que dependem amplamente de movimentos contrativos para o propósito de quebrar as juntas do parceiro.
Combinando o estudo da espada com as técnicas desarmadas somos capazes de descobrir o antagonismo complementar sobre flexibilidade e o poder descontraído (relaxado) unidos com nitidez e precisão. Nas palavras do fundador, ”no treino desarmado você deve mover como se tivesse uma espada; quando segurando uma espada você não deve depender dela, mas mover-se como se não tivesse nenhuma.” Estudar este Kamae, ou posição, nos mantém centrado na realidade da situação marcial e, ao mesmo tempo, nos permite permanecer flexíveis e relaxados.
Unificar estes opostos é descobrir o principio do Aikidô: Yin e Yang como sendo um, e movimento e descanso como sendo um Irimi-Tenkan como sendo um, a unificação de todos os opostos em uma forma de Monismo dinâmico.
Este artigo pretende dar uma visão geral e as várias semelhanças entre treinamentos armados e desarmados a ser feito com um instrutor qualificado. Não bastarão simplesmente repetir os Kata de espada como formas fixas sem descobrir sua estratégia e conteúdo. Cada estudante, sobre a supervisão de um instrutor qualificado, deverá adquirir a forma de ambos os treinamentos, armados e desarmados, como parte de um todo, e através de contínuas pesquisas, analises, esforçar-se para refinar seu, ou sua, forma individual de praticar em níveis cada vez mais altos de perícia.

 

OSU (OSS)

Leonardo Sakanashi (CDA Argentina)

A  palavra OSU vem de “Oshi Shinobu” e se escreve com dois kanji: “O” que significa “empurrar” (oshi) simbolizando 100% de esforço e “SU” (shinobu) que significa “aguentar”, “resistir”. Combinado, “OSU” é um compromisso de se esforçar ao máximo e resistir.

Arte Marcial requer muita disciplina que por sua vez exige um grande nível de autorreflexão, e a autorreflexão é mais afetada pelas verdades irrefutáveis do que pelas recompensas.

OSU significa paciência, respeito e reconhecimento. Para conseguir um corpo forte e um espírito forte é necessário passar por um rigoroso treinamento. Isso é muito desgastante, pois precisa-se levar o indivíduo ao seu limite, ao seu máximo. Quando chega a esse ponto o indivíduo deve lutar consigo mesmo, contra as suas fraquezas e vencer. Para isso você precisa aprender a ser perseverante, mas acima de tudo precisa aprender a ser paciente. Isso é OSU!

A razão pela qual você se sujeita a um treinamento duro é porque você se preocupa com você mesmo, e se preocupar consigo mesmo é respeitar a si próprio. Esse autorrespeito o domina e se expande para ser tornar respeito ao seu instrutor e aos seus colegas de treino. Quando você adentra o Dojo você se inclina e fala “OSU”. Isso significa respeito ao lugar e ao tempo em que se passa se treinando nele.

Esse sentimento de respeito é “OSU”!

Quando treinas, você treina forte e exige o máximo de você mesmo, porque você se respeita. Quando o treino termina você se inclina e fala “OSU” para o seu mestre e companheiros. Você o faz sem pensar. Esse sentimento de fazê-lo sem pensar é “OSU”.

Também usamos este termo como saudação, para nos despedirmos, como reconhecimento de algum feito, mas mais como do que tudo como sinal de reconhecimento – respeito e gratidão.

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